Na Penumbra dos Luzeiros
Publicado em
Lá, na beirada do rio grande onde a brancura das dunas degrada o verdor dos campos e a imensidão azulada, um tal José Clarimundo divide imenso candeeiro com seus parceiros de penas que também são sentinelas.
Este responso que herdou de entardecer bem na copa de um mangrulho de cimento, às vezes, lhe causa angústia por não poder ver de perto a embarcação que se vai, levando sonhos pro cais deixando coplas ao vento. É qual o João Barreiro tristonho parado à porta do rancho que espera com triste canto a fêmea que ainda não veio.
Embora cansado seja, curtido pela aspereza das intempéries do sul, inda se encanta co’a luz que é a única testemunha de sua eterna bondade. Pois sempre - todas as tardes – empurra sua sombra esguia junto co'a sombra do mundo rumo ao farol que lhe espera, para alumbrar mar e terra, para orientar caravelas, clarear o breu num segundo.
Depois, de volta no rancho entre o acende e apaga do castiçal beirador, Clarimundo – bom guasqueiro – trança a finura dos tentos com a perícia dos ventos que fez morada em seus dedos.
Mas logo, a saudade atraca no cais do seu coração, pois na fumaça de um tição que chora a dor das feridas – passam qual nuvens no céu lembranças de um temporal que o fez tristonho pra vida.
Escureceu o horizonte nos lados do litoral e enfurecido o mar veio como mil tropas em cargas com seus lançaços de mágoas sugando vidas pra si. Lavando a orla do mundo, deixando um vazio profundo nos olhos que eu conheci.
Nesta terna parceria de coureador e guasqueiro, os couros mortos nas carnes renascem - lindos aperos – ponteados com mil carícias pelas mãos do Clarimundo que nem faz conta dos calos, pois, quem mereceu afagos e navegou em seus olhos para embalar sua paixão, levou para além mar o brilho do seu olhar e um naco do coração.
Lá, na beirada do rio grande um vivente afoga as mágoas gastando coplas pras águas vencendo o breu num segundo. Depois, no rancho de palha, trança lembranças da amada entre o acende e apaga de um candeeiro moribundo. Pobre luz que não afaga, tão triste pra um Clarimundo.
Quem sabe a noite por buena tendo a lua por lampião, poupe as estrelas do céu e acenda as outras do mar, só pra clarear Clarimundo quando o farol, que é seu mundo deixar de ser e apagar.