Monumentos
Publicado em
Quem os vê na estampa - alma em bronze puro - de lança e sabre descansado às mãos, - meio soldados sob um talabarte, meio gaúchos poncho e pés no chão - não imagina que esta galhardia de adornar as praças e acordar os dias já estropearam fletes pra fazer Rio Grande demarcando a sangue o mapa que nos cria.
Decerto a força deste criolismo que ainda hoje habita nos demais entono, amparava a estirpe destes combatentes, que enlutavam ranchos sem odiar o dono, que deixavam vagos um lugar à mesa e um vazio imenso nos olhares doces, que amargavam lenços depois da partida.
Esses homens! ... Impregnados de patriotismo e muita vergonha no semblante austero, enrijeceram as colunas verdes e partiram loucos para o “entrevero”, com a perícia de bolear um touro e o tutano qual um cerne “bueno” - sobrando coragem pra avançar no inferno -
Nesse tempo, eu, que mal quinchara meu rancho e mais sabia de potros, de planta, roça e capina, via passar bem “despácio” homens deixando no rastro a cor da carnificina, e o fio do aço a se gastar goelas, pra fazer família no breu das trincheiras e estorquir a honra da tropa inimiga.
Então, para seguir um caudilho também tapereei meu pago, passando a morar somente, na orfandade eloqüente de três corações partidos, e um a bater dividido, entre o amor pelos filhos e ausência de seu soldado.
Desvirginei horizontes, tendo no azul das retinas, o pardo-negro das noites que às vezes viravam dia, quando avalanches de fogo desaprumavam os sonhos e esfacelavam as frontes dos filhos da covardia. - Nesta hora, é a vez dos que tem nos olhos a ira dos gladiadores o peito por armadura e um fuzil por garantia. -
Quando o silêncio mórbido das catacumbas nos fez descansar as armas e enlutar o espírito, jaziam sonhos bonitos sobre o negrume dos campos, lembrando as noites claras, a palidez das coivaras, saudosas de suas cigarras, despidas de pirilampos.
Desfiz-me da dor do corpo, dos trapos e das feridas, mas na alma inda tem vida a cicatriz das refregas doendo em vão pesadelos, quando a noite por sinuelo rouba meus sonhos amenos e me leva pras trincheiras.
Hoje, à sombra de um caudilho de centaura estampa, numa praça onde me fiz de dono, vislumbro os de mais entono que me vigiam de longe, trazem na estampa o Rio Grande, e a galhardia dos fortes que outrora fizeram Pátria - “Herança de heróis sem nome”