Panta do Mato-Panta do Rio
Quando o sol da meia tarde clareou os sulcos do rosto do andante que chegava, jeito simples, tranco firme, viu o barqueiro de pronto que era bueno e tinha estofo o peregrino viajor. Dos troncos da mouraria, de antiga estirpe tropeira, monge dos matos fechados, campos largos, rios ligeiros, Pantaleão Dias da Rosa.
Distanciado dos prazeres, dos bens que se pesam fácil, dos brilhos que enganam muitos, no rastro das ilusões, exilou-se nas ribeirinhas, fundões de campos, peraus. Viveu das dádivas férteis que a natureza oferenda, respeitando a plenitude que faz o homem consciente, sabedor de rios e matos e muito mais de silêncios
O tempo estendeu o manto, omissão e esquecimento na biografia singela. Seus motivos e razões ficaram nas ribanceiras, na boca dos ventos loucos que vêm tristeando os andantes no ermo das soledades. Seus gestos, palavras poucas, o jeito manso da fala, foram construindo um mito mal assombrando os pesqueiros.
O sol dos dias andados no contraponto das luas, das noites de ronda inteira, moldou um taura arredio, olhar de espreitar os longes pelas frestas maldormidas da retina das restingas. Irmão de faunas e floras, sem desfazer a ninguém, ermitão das léguas grandes, legenda-Panta do Rio, a lenda-Panta do Mato.
Por prescindir das benesses de não tão poucas herdades, deram por louco Tio Panta que não sabia de platas, da plata vil das balanças. Mas tudo tinha de ouro, do ouro outonal dos valores que faz homens e brasões, honradez, princípios retos, um olhar terno pra o mundo, no recriar outro mundo pra o sonho azul das crianças.
Agora chegara quieto na margem do rio final, como quem sabe o caminho porque entendera o destino. Esse rio...desaguadouro dos rios de tantas andanças, que lembra mansos remansos, lunares claro-cinzentos dos pesqueiros do Aguapé. Límpido som das cascatas, sombreado das canjaranas da costa do Toropi.
Mal o barqueiro partiu , levando Panta do Mato no seu viajar derradeiro, a vida ficou mais pobre. Voltou pra os longes o andejo meio louco, meio monge, mestre de poucas palavras, senhor de matos e rios. A noite encostou na tarde espesso véu de silêncios, agora bem mais silêncios... Silêncios pra nunca mais!