Pelo olhar de um Domador
O coração tem porteiras, E uma delas, é a visão! A vida é feita de imagens, E há algumas paisagens, Que tocam o coração!
Foi numa manhã de inverno, Das de geada preguiçosa, O frio alongava a prosa E o choro alongou o galpão, Pulava a cerca pra vida... Mais um gaudério fronteiro, Fruto do amor matreiro, Da negrinha e do mulato.
Depois do festo natal Ventou a desolação, Pois o negrinho nascente, Veio ao mundo sem visão. Era menos uma porteira, Pra estrada do coração! Cresceu no fiador da vida, Um piá de casa e galpão, Alma e sonho mergulhavam Num mundo cor de carvão!
Noutra costa da fronteira, O manto do céu cobria... Uma cena doutra cor, Um aporreado sebruno, Sentia o dente da espora, Do Benício Domador!
Ìndio de fama e coragem, Campeiro aos quatro costados Costeador de mal domado, Só no conselho da puas.
Um gaudério de alma nua, Nunca temeu caborteiro,
E só sacava o sombreiro, Para os olhares da lua! Quando estendia o olhar, Na Pampa, aberta, estendida, Parece até enxergar... ... O que havia além da vida!
E pelos olhos estrelos, Passavam miles façanhas, Entre pecados e feitos, Deixavam-lhe satisfeito, Os retratros da campanha!
Sentiu “os ferro” o sebruno, Se dobrou pegando a volta, Com um carrapato ao lutar, O maula que é mais malino, Se não derruba na volta, Vem de lombo pra apertar.
Benício sempre saia... Mas há o dia da alegria, E também o da tristeza, A bolcada foi de morte, E talvez faltasse a sorte, Pois não faltava destreza!
E na dor da perda bruta, Daqueles que com Benício, Ajoujavam coração, Decidiram doar a vida, Um par de esporas benzidas, E uma junta de visão!
Em outra beira do céu, Da Fronteira do Rio Grande, Um negrinho, já taludo, Ganhava visão do mundo, Com os olhos do domador!
Bendita ciência! Bendita bondade! Se abriam porteira, Para a felicidade!
Quanta vida abandonada Pelas retinas mareadas, Pelas Pupilas escuras! Mas quanta gratidão calada, E quanta vontade matada Pela visão da lonjura!
Em Pouco tempo o negrinho, Surrava e cortava potros, Com o par de esporas doadas, E com a junta de estrelas, Vinda de outro rincão, Era uma porteira aberta, Pra estrada do coração!
E os olhos do domador, Prosseguiam enxergando, Na face de um negro cego, Que um sonho alcançou domando.
Quando “veiacos” zebrunos, Por maulas pegam na volta, Para tombear o negrito, Vaqueano, cuida a orelha, Como fazia Benício, Com seu olhar infinito.
E cada vez que um por de sol, Rubra seu par de retinas, Com a maragata cor, E como se a luz da vida, Desce sangue a alma cega, Pelo olhar de um domador!