O Último Vôo de um Encarvoado
Nascia fronteiro Como tanto outros Que a própria vida amadrinha Pra que percorram a linha Dos ofícios de um campeiro...
Quem foi parido no campo Por certo vai alambrar, Fazer corda, ser tropeiro, Capataz, peão ou caseiro. Quem foi parido no campo Pode ser esquilador, Ser mascate, bolicheiro, Carreteiro ou domador.
E ele, assim, Quando piazito changueava Curando “pique” em comparsas. O seu berço humilde e pobre Repontava-lhe ao labor. Também ganhou alguns cobres Na lida com parelheiros, Corpo franzino e ligeiro, Foi nas canchas vareador.
Pele escura como a noite, Olhar de estrela boieira, Peito estivado de sonhos E uma alma leve e branca Qual nuvem que paira só No limpo céu da fronteira.
Já mocito, negro guapo, Tirou boladas em domas, Tenteou a lida da trança, Pegou por dia em cercado, Foi efetivo em estância, Mas terminou despachado.
Assim, então, Viu-se na vida um estorvo, Sentiu vontade da morte, Pediu pra Deus pra morrer, Pois quem dá a luz é que apaga! Quem cuida a porta é quem cobra!
Mas a vida é mesmo um conto, Em certa manhã de maio Morre o coveiro Anastácio. Não há ninguém para enterrar! O negro, ofício vazio, Naquela tarde de frio Passou a mão numa pá.
O negro, pele de noite, Olhar de estrela, Que não foi um peão de estância, Muito menos domou potros, Virou coveiro de ofício. Com a morte do Anastácio Morreu um, nasceu o outro!
Dali em diante, Bem, dali em diante O preto, antes vagante, Virara sepultador. Sua arte a inumação. Sempre lidando solito Dava descanso ao proscrito Em seu cerrado caixão.
Sepultou índio valente, Pai de família e ladrão. Abriu cova pra criança, Aterrou corpo de andante, Sentou lápide de peão.
E este seu funesto ofício Dava-lhe ar misterioso: Preto, sinistro e sisudo, Levou a alcunha de corvo. Deixou de ser um estorvo Pra tumulizar a vida!
Sendo corvo, um encarvoado, Como narrara Simões. Esperava nos galpões Notícia de algum finado.
Anos a fio dando fim Em corpo isento de alma. O encarvoado enterrava Quem se ausentava da vida. Era uma lida sofrida E por isso foi aos poucos Passando a entender os loucos, Vendo na morte guarida.
Quando cobria de terra Mais um ente que se ia Sentia uma pá de cal Em sua própria alegria...
Um dia, não tinha morto, A vida dera sossego. Em sua cama de pelegos Dava boca ao pensamento E sepultando a vontade E a gana de andar no mundo Ele cavocava fundo O campo santo da desilusão.
Não pôde ser peão campeiro, Não pôde galopear potros, De tanto dar fim nos outros Resolveu dar fim em si. Foi hora de dar pra outro O que Anastácio lhe dera. A alma virou tapera