Alma em Verso
Poesia

Mansarrão

Matheus Costa

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Estranha o sestro e a cisma que perdeu, sentindo a idade; E, talvez, tenha saudade dos retovos, d'um tirão. Pastoreando a amplidão repisa a sombra, mosqueia… Cuida o vento - volta e meia - mas vai morrer mansarrão.

Refuga a sanga mais alta, não vai no campo do fundo. A distância é um pobre mundo que, por algo, lhe faz falta!

Cruz judiada por andanças e, depois de tantas perdas, na crina rala da cerda é o pampeiro quem faz trança. As garras são mil lembranças pra'o vazio da solidão. ...Resta assim, um mansarrão que o buçal já não alcança.

Os galhos das pitangueiras desfizeram seus espinhos, afagando-lhe o focinho ao cruzar velhas porteiras. Os domingos, as carreiras, as canchas por rapadura são, agora, marcas duras na quietude das basteiras.

Vai sorver restos de dia olfateando o trevo em flor; Ou rondar o corredor e as lindeiras cercanias. Já não é de serventia ao caseiro enforquilhado, que recorda no passado seu pingaço de valia!

Mansarrão... deitou o toso num alambre imaginário que compõe o seu cenário tranquilo, mas duvidoso. Lamenta o verão custoso onde faz rumos em branco… Vendo o destino – um potranco sempre maula e cosquilhoso –

É uma lágrima genuína chorada às vistas dos matos, que compôs o seu formato num resto de cola e crina. ...É um verso do pago em flor - que já fora tranqueador - desfeito da própria rima!

Cada ponta de flexilha arrancada por seu passo, é o destino, quase escasso, que a distância desencilha. ...Nestes ermos de abandono perdeu as sobras de entono, como um laço sem rodilha!

Parece até que as demoras são maiores do que antes, quando vê seus semelhantes cinchando no campo à fora. Sua alma de potro aflora, mas já não é como os outros!... ...Por sentido dos encontros, co'a vida menor que a hora!

Nestes fundos de rincão, nunca mais parou na forma! Ser solito é quase norma pra seu miúdo coração! Segue o mesmo - mansarrão - o mouro das recolhidas… Enquanto a morte convida pra comer na própria mão.

À mingua d'algum potreiro erguido perto das "casa", acende as últimas brasas do seu instinto matreiro. Mas agora é companheiro da soga da calmaria, cuidando em vaga vigia seu destino num potreiro!

Casco que a pedra desfez e o barro curou adiante… - Ser manso, já é o bastante… - Lhe verem manso, talvez!...

Quem sabe, ainda se espante da soga, a última vez; Ou refugue e sinta medo da cincha, de manhã cedo… ...como tantas vezes fez!

Por tardes, bebe a paciência no banhado da memória; ...Parece um resto de história, contado pela querência… Andarengo dos caminhos, é um vulto que está sozinho maneado na própria ausência.

Sentiu o peso da geada no abraço duro do inverno; Frouxando um tanto do cerno, mas continuou a jornada! ...Apartado à cavalhada de serviço da tropilha, feito uma chispa que brilha mas, por ‘vez’, dorme apagada!

O assovio do peão por dia já não é mais chamarisco… Tudo é menos do que um cisco, comparado ao que existia! ...E, talvez, nem percebia que junto aos anos passados, entre a alma e o seu estado, mais um pouco se perdia!

No seu íntimo descanso, muitas luas já mudaram… E os xucros já lhe invejaram por ser simplesmente manso; Cada momento que avanço, no infinito da invernada, lhe vejo imagem gravada de um quadro que não alcanço.

Muito embora essa distância nos afaste, nos reprima, ela sempre nos ensina tudo aquilo de importância! Pois, a genuína constância do que é eterno ou que não, fez-lhe assim, por mansarrão, imortal dentro da estância!

Pastoreando a amplidão… ...teimando a sorte, tranqueia; Cuida o vento - volta e meia - mas vai morrer mansarrão!