Alma em Verso
Poesia

7. João Lonjura - Matheus Costa

Matheus Costa

I Estância da Poesia Crioula - VirtualPublicado em

Nos olhos, poeira e distância... Na alma, restos de adeus!...

Desta forma, João Lonjura rompia várzeas e tropas, pelas tardes mormacentas que o janeiro lhe anunciava...

Conhecedor dos caminhos - mais que do próprio destino - já nem contava nos dedos as lembranças e segredos que o fizeram peregrino destes silêncios de andar!

João Lonjura... Poncho judiado das traças, mas que era casca pra pele e pra alma, contra o vento das canhadas e taperas!

O mouro, um eterno amigo, com luas moldando os cascos e marcas de mil estâncias, agora era seu somente! ...E a razão de andar em frente, sem voltar d'onde cruzou!...

No coração, a pureza destes fundos de invernada... ...da gente que foi criada sabendo aonde pisar! Migalhas de sonhos idos na mala atada do tempo... E algum murmúrio de vento que ele aprendeu a escutar!

João Lonjura... "O peão de tantos!" ...Serviçal da Sanga Preta e domador das Quatro Estradas! ...Quanta alegria extraviada, quanta tristeza contida na velha muda da vida que é dura e não vale nada!

Na cordeona, um vício largo!... ...de embriagar madrugadas nos fogões de hora e pico! Muito embora, aqueles dedos (condenados pelas rédeas e cabrestos mal torcidos) não tivessem a destreza musiqueira d'algum outro!

João Lonjura... Distante mas sempre perto daquilo que lhe atraía: O carteado, a pulperia, o chinaredo, a cavalhada. ...- Já que a vida vale nada, da morte é que ele se ria!...

Cambichos, teve - por certo - a perder-se, mundo à fora! Retoçava e ia embora, sem apego e nem saudade... ...sem carinho e nem promessa!

...Até que numa volteada, seu olhar de mil estradas, parou na figura clara, delicada e tão serena da Siá Doninha - chinita - ...Das irmãs, a mais bonita, filha "d'um índio "Barreto"... ...sangue malo e duvidoso da querência onde vivia!

Esta lhe negou o estrivo!... E depois de quase ano, João Lonjura estava só! À míngua da própria sombra e da vasta desesperança que um desamor traz ao peito de quem sucumbe ao encanto temporão e venenoso, cancheiro de despedidas!

Então, virou "João Ferida", "João Solidão", "João Lamento"! ...Mais um adeus na memoria, mais léguas pra ele seguir!...

João Lonjura, estava longe do rincãozito e das "casa";... Bebendo na sanga rasa da pobreza costumeira nestes rumos estendidos.

Mas trazia, junto à si, uma cisma que era boa e que nunca lhe deixou gastar retrechos em vão! ...Era uma fé companheira - crioula intenção benzida - que lhe ofertava guarida pra cada naco de chão!

No corpo, os golpes sofridos que os andejos cedo levam, enquanto acham na estrada seus testemunhos sinceros das horas lerdas e escuras, até o que chamam de "fim"!

João Lonjura, foi assim... Caminhador e tropeiro; Rumbeador e estradeiro; Cristão puído, e com marcas que nem a idade consegue botar na talha que têm!

Lonjura, porque era rumo... João, por circunstâncias da alcunha!

...Era como um verso escrito que ninguém parou pra ler; ...Era um exemplo à se ter, destes que ainda acredito!

João Lonjura, andou distante de família e de romance; Jamais esteve ao alcance da fartura e da bonança nas mesas dos estancieiros!

No corredor, um paradeiro!... No arreio, um berço de ouro!... E em cada tira de couro, um relato e uma façanha!

...João Lonjura, o "João Campanha" se chegava no povoado! - Lá vai indo o João, criado longe de tudo e dos seus... Mais um João que se perdeu entre o adeus e o caminho... Mas jamais ficou sozinho, quando ele foi "João de Deus!"