Saudade Não Cicatriza
A lembrança arranca a casca Da epiderme do tempo E a carne do sentimento Sangra de novo... e de novo... Sangra por velhos momentos Por sonhos e despedidas... Qual um remanso da vida Nas águas do pensamento... No corpo do esquecimento: - Saudade não cicatriza.
Saudade é dor que não cessa... Indelével pisadura... É talho, que não tem cura, Cortando fundo na alma... Saudade apenas se acalma Mas segue sempre a seu jeito Deixando o ar rarefeito E o coração apertado... É um presente que o passado Entrega ao rancho do peito.
Saudade é o pai que partiu ... É a doçura das avós... É o desate dos nós E a cada qual uma ponta... Saudade é o que faz as contas Multiplicarem os dias Num calendário-nostalgia De viver o já vivido Com o mesmo gosto sentido Num beijo de poesia!
Saudade não cicatriza... Porta que dorme entreaberta, Que espera a visita certa, De alguma recordação... Inverso fogo de chão Que nasce cinza e vira brasa E aos poucos aquece a casa Coloreando o tom escuro Pois, quando a sombra ergue um muro, É o luzeiro pra estrada...
Saudade é abraço em si mesmo Nas horas de solidão É prece a pedir benção Quando a tristeza machuca... É o que insiste e retruca Nos deixando mais cativos Daquilo que é lenitivo Nos afastando o vazio E lembra que quem partiu Dentro de nós segue vivo!
Saudade é rumo e chegada Onde a memória se apeia Tecendo, em silêncio, a teia De inconfundíveis passagens... A preservar as imagens, Junto à retina embaçada, Pois, se esmaecem miradas... Sorrisos... rostos familiares... Saudade é a flor dos luares Clareando nas madrugadas!
Saudade não cicatriza... Nem admite sutura Há que sangrar limpa e pura Para amainar os espinhos ... Saudade é taça de vinho Erguida num brinde eterno É colo e seio materno Que nos empresta aconchego Saudade é a lã dos pelegos Que aquenta os nossos invernos
Saudade é cerca atorada Nas sesmarias do tempo... E a tropa dos sentimentos Que por ela passa ao tranco... Saudade é lágrima e pranto Que verte salgando a face É o reverso do enlace Na trança que se desfaz Mas segue tento de paz Que em outra trança renasce
Saudade é sopro de vento No descampado que fica... Quando a lembrança se agita Teimando em arrancar a casca... Saudade é sempre o que basta Pra confortar ansiedades Que buscam contrariedades No rastro dos pensamentos E fazem dos sentimentos Quedarem-se por metade
Saudade não cicatriza... Segue sangrando e sangrando E aos poucos vai nos curando Sarando... insistente e lenta... Como a benzer as tormentas, Amansando o que precisa, Até transformar em brisa O vendaval mais violento; A alma só encontra alento... Saudade não cicatriza!