Batalha
O frio que me corre a espinha percorrendo o corpo, Que me gela os ossos, o espírito e que me escarnece a alma.... É o gêmeo calafrio ... O arrepio-irmão da arritmia que me aquece a carne! Enquanto a boca me insiste em salivar as fantasiosas divagações de noite e calmaria... lembranças de um tempo que está logo ali, parece ontem!
Talvez minhas pupilas reajam melhor ao convite químico, do que à própria física solar que invade a sala... Afinal... recém é meia tarde... Dia-de-semana! Meia tarde de quarta.... melhor abrir as janelas e ver a vida... Achar uma ocupação... ao menos aos olhos de terceiros...
Mas “ e quem sabe ”? ... Sempre a me indagar o velho “demoninho”... pequeno Anhangüera ao lado esquerdo.... “E quem sabe... se não é a quarta uma parte inteira do que a alma... do que o corpo pede? Quem sabe as tuas pupilas reajam melhor ao convite químico, do que à própria física solar que invade a sala ?”
Demônios... Sempre a insistir... Me afrouxem um pouco! Procurem um outro redemoinho... senão um outro louco! Afinal, posso dizer... estamos empatados! Um por um! Não quero mais! Pois já perdi..... já vi o fim de tudo ... e era cedo. Não era a minha hora... e não será! Confio em mim! É o que me basta....
Ah! O que dizer? Como chamar de ruim o que sacia? Como desprezar o máximo estertor de liberdade? O clímax motriz de cada célula do corpo? A leveza dos sentidos? A cor do toque? A maciez do som? O volume do olfato? A inteireza das palavras? Desprezar a fuga dos freios dos princípios? O esquecimento do ego? A supremacia da vontade? Como agradecer... deixar passar, a sublime insensatez do “ninguém sabe”, do “ninguém viu”... “segredo nosso”!?
Afinal.... sempre foi o “eu me garanto”.... “paro quando quiser”.... “O que cabe na palma da mão não me domina”... “será só hoje”.... Sempre foi o “não da nada!”.... e “se der alguma coisa a gente reparte”...
Será?.... reparte mesmo? Ledo engano... ilusão poeiril que se desfaz na primeira toada.... Ninguém repartirá contigo a salvação. Ponto final!
Quando chega a hora... vale mais o “cada um por si”....
E o brabo mesmo é enxergar a hora.... Ninguém te ensina a entregar os pontos... a ser derrotado. Somos sempre “nós.... os vencedores”....sob as insígnias da honradez e da conduta!
Ganhar é fácil... o espelho ajuda! ... quero ver perder...
E a primeira coisa que se perde é o respeito.... a vergonha própria Depois a família... a mulher, as filhas.... Os amigos já não estendem as mãos.... O pensamento é um labirinto insosso Anda na volta e não encontra o rastro... não encontra o gosto, não encontra o cheiro, já não tem razão... Eu aprendi penando: o peito cura... quando é só ferida.... E se viaja longe quando não se quer voltar... Cuê pucha! a vida é de fato uma batalha! Mas.... estando a guerra ” um por um”... me agrada o empate! Afinal a morte é só o resultado.... o prêmio de consolação ...pelo bem, pelo mal... há nada além....
Eu sigo assim... chiripá e vincha! Alma larga e lança! Na pena, o peito aberto em poema pra sangrar estrelas se preciso for. Enfrenarei as nuvens das minhas incertezas... acalmarei minhas tormentas.... Com a serena benzedura de uma cruz de sal... E serei garrucha de um tiro só... minha palavra o projetil de chumbo O básico produto a fazer inertes as voláteis reações da alquimia dos desejos...
Carrego em mim a humildade... de quem se viu no espelho e não se enxergou. A certeza de que a queda é uma questão de tempo... ao desprezo das alturas... Carrego em mim a esperança... de seguir voando, na dança que dispensa as asas da fantasia e que voa de igual maneira, vestindo a túnica inflexível da realidade...
Guerra é assim, tiro por tiro... um leão por dia... Olho na mira, dedo no gatilho... esmoreça e esteja pronto para arcar com as consequências.... para aguentar a queimação de um tirambaço... a frustração que nos surpreende a queima-roupa.
Por isso digo, afinal e por final, amigos meus... graças a Deus: Que a vida.... cuê pucha! A vida é de fato uma batalha!