Galpão
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Bandeou-se à noite – e com ela – Miragens de um sonho largo! Há um borralhão no nascente - meio de brasa e de cinza - Há uma tristeza nos olhos Da manhã que principia!
A cascata d’água – de torrentes lindas – Onde me banhava, São agora lágrimas que de mim desprendem!
Está vendo parceiro... Ali sobre a lomba... os esteios de cernes, Tão firmes ainda? Pois era o galpão – minha casa de infância. E tudo se foi... E agora só resta – as cinzas revoltas – na terra vermelha! Parece mentira... As cinzas... provindas de tantos angicos, Relata o passado de histórias tão lindas Contadas com calma por velhos tropeiros!
Eu sinto na alma o calor de teu fogo! Era pequeno... tão cheio de sonhos... Tu foste meu berço, minha mesa e escola, Escola gaudéria de mestres campeiros.
Recordo... E a peonada arisca dos meus pensamentos, Boleiam a perna. E trazem prá diante de mim, as tarcas do passado: A mesa de truco, pros dias de chuva; O catre de couro, forrado a pelego; A velha chaleira... a caixa de erva... Ervita tão buena... A cuia morena... costeada a carinho Por tantas mãos grandes... de muitos estranhos! No gancho – os aperos, Trançados de cordas.
Constante “Ô de casa” de muitos andejos, Proscritos, gaudérios, sem rumo ou morada! Teu fogo infinito de beijos calientes, Um poncho, um presente Pras noites de geadas!
O tosco cenário de contos e lendas, De muitas pendengas, carreiras, fandangos, E chinas levianas! E todos contavam, E todos falavam, E eu escutava!
Recordo a sanfona, vaneras e tangos, E um lenço chimango tremendo ao compasso De um sapatiador! Milongas, poesias, cantadas com gosto – Relatos tão tristes de casos de amor.
E um dia contaram... Que um velho chirú – cansado da vida – Fez este pedido: Me estendam no centro – na mesa de truco; E quero nos cantos – bem junto aos esteios – Tições fumaceando... Que lembram em relance... as velas queimando!
E ainda pediu... Que o poncho fizesse a vez de caixão; E que lhe deixassem os olhos abertos Como se quisesse enxergar bem de perto, O luto crioulo de tantas fumaças Do teto encardido do velho galpão! O guasca morreu e todo fadário Cumpriu-se no rito!
E agora galpão... Só resta os recuerdos. Só resta os esteios de cernes, fincados. Num upa se foram, cambiaram-se os tauras, O fogo apagou-se e com ele o calor.
Capins “mata-campos” cresceram em teu seio No meio das cinzas – piquete de mágoas!
Cuê pucha... Pois pode a terra tapar o teu quadro E o mato atrevido – teu vulto lendário! Pois tu me criaste – e eu continuo... E enquanto eu viver, Tu sempre hás de ver e sempre escutar: Peonadas... tropeiros... e contos, e lendas, Aqui no meu peito.
Aquele teu fogo é eterno... Está aqui dentro de mim! Bem aqui na veia grossa Donde corre o sangue quente – De quem já muito sofreu, De quem já muito agüentou, Corcovos do coração!
Bueno... Deixo correr estas lágrimas... Abro no mais a chaleira E pego a cuia morena; Aquela ervita tão buena, E tu serás chimarrão!
Tu foste meu berço, minha mesa e escola... Escola gaudéria de mestres campeiros! Agora criado... meus sonhos findaram... E eu choro a saudade e a falta de amor!