Retrato
Publicado em
Chegou, sem pedir licença Me viu sentado, sentou. Eu esperei que falasse Ela falar, não falou. Após um longo silêncio Pediu que eu pagasse um trago. Pedi dois, um para mim.
Esvaziou o copo num gole Talvez em busca do efeito...
Paguei-lhe outro, mais outro Afinal pensei: A pobre! Quer se afogar que se afogue Cada um sabe o porque...
E sem diálogo ficamos Ali sentados, calados Nada havia pra dizer.
Nossa ligação estava Naquele brinde de copos Da mesa de um bar qualquer, Onde uma estranha mulher Chegou, sem pedir licença Me viu sentado, sentou.
Seus olhos semicerrados Vagavam em devaneios Talvez famintos de afetos, Na meia luz desse bar...
Bonita, muito bonita, Judiada porém bonita.
Era a beleza agressiva De quem está de mal com o mundo E para o qual derramara Seu mais amargo rancor...
Entre murmúrios e risos Se ouvia a voz de um cantor. Era a imagem da ironia: Fingindo um canto alegria Chorava pra um falso amor... E a platéia indiferente Escutando sem ouvir, Ia no impulso do trago Aplaudindo sem sentir.
Foi quando a moça sorriu. E diante do meu espanto Me disse: “Sabes? Eu canto, E muito, muito cantei...” Pensei: será que a conheço? Ela sentiu a surpresa Que por certo demonstrei. Voltou para seu silêncio. Esperei que continuasse Mas nada mais comentou...
Depois de um instante breve Abriu uma bolsa surrada, Tirou um velho retrato Com emoção me entregou...
Eu quase morri de espanto, Na foto do desencanto Estávamos de mãos dadas, Os dois, olhando pra o nada Num instante inconseqüente Que nem o tempo guardou... --------------------------------- ...E se foi como chegou sem dizer uma palavra nem ao menos um adeus...
Fiquei calado, pensando Olhando os copos, lembrando, Oh! Meu Deus como sofri. Tempo amargo eu te maldigo! dizer que fui seu amigo E nem a reconheci...