Quando Cordas Pedem Tangos e Milongas
Num findar de tarde mormacento... Por birra com o angico, o Jacarandá roceiro pulou o alambrado, e foi crescer na beira do barranco abaixo do olho d’água. Queria fazer sombra pra cacimba! Servir vaqueiros e boiadas...
Do sangue verde que pulsava nas veias, Transpirava flores novas na primavera... Pala roxo, floreado, bordado da natureza. Uma espera incontida pelas comitivas, água fresca pras mateadas do fim de tarde...
Ia sonhando com a liberdade, nos delírios de campear bois nas ramadas, eterno viajante de raízes profundas... Nos verões... Galhos e folhas... A busca de fronteiras além-campo. Um apaixonado por floreios de cordeona! Gigante resoluto, de garrão fincado ao pé do serro. Amante de braços abertos oferecendo pouso e guarida aos tropeiros...
Acordava com alaridos de sabiás madrugueiros. Nos escaldantes verões, eram cigarras... Ah! Pobres coitadas! Cantavam desesperadas pra depois morrerem enforcadas, na trama das finas cordas vocais!
E o Jacarandá, por que precisou morrer?
Na eternidade dos segundos, o tempo caborteiro disparou na cancha reta, paleteando as estações!
Já velhito, o estático cerne maciço de lei, olhou de soslaio pra figura atípica que se achegava: Braços de tronqueira; Bombacha rota arremangada a meia-canela; Melenas tordilhas sobressaindo num negro chapéu puído.
A lâmina soberana aos ombros era o Decreto de Hefesto*! Era a sentença de morte, era o juízo final! Leve como pena e pesado como aço em brasa, das costas ao chão, o taura soltou a carga como um campeiro a largar um marca-touro. Fez o sinal da trindade mirando os olhos do réu, que mudo e atônito, sequer contestou a sina: Nascer e crescer, pra depois morrer decapitado! Não por traçador de serraria, mas por duros golpes de machado!
Das manoplas partem golpes mortais, Esculpindo a carne! Do Condenado: Nem lágrimas, nem ranger de dentes... Só o triste ruminar de lembranças, sonhos acalentados... Ser livre, andar pelos campos, pra depois da lida dura, sestear nos pelegos com uma cordeona!
O sol desponta a trote largo... Sem fôlego, esvaído, vem abaixo. Sentença lavrada no próprio couro! Galho a galho o poncho verde é desfiado, esquartejado, como a necrópsia de um moribundo.
E o jacarandá, por que precisou morrer? Sem velas, sem candeeiros, sem velório, sem carpideiras... Atrelados, salino e oveiro, arrastam o ataúde de quatro rodas, que parte choramingando com os pedaços do finado.
A procissão segue lentamente... Sem parentes ou amigos. Um homem, uma junta de bois e um cusco lampeiro. O cortejo fúnebre ruma pras “casas” guiado pela boieira.
Passam as invernias... As tropas costeiam o olho d’água onde nasce um novo Jacarandá. À léguas, seu ancestral embalsamado é movido pra banca. Enxó, plaina e formões trabalham nos dias de chuva. O alquimista de mãos ágeis invoca poderes! Traça fórmulas, rabiscos, entalha o cerne linheiro dando forma e vida ao inanimado!
Secaram as veias por onde muita seiva correu, pra que dedos calejados extraiam notas e ponteados, fazendo brotar sinfonias mágicas duma caixa! Pra que tímpanos degustem afinados acordes ao Ressoarem claves de antigas partituras!
As cigarras suicidas cantam desesperadas... Os sabiás madrugueiros fazem dueto. Por isso morreu o Jacarandá! Porque uma cordeona desgarrada, choraminga saudades! Violeiros clamam guitarras... Paixões suplicam tangos e milongas e pares de cordas pedem viola!