Monólogo de Passagem
“Meus pés inquietos Dançam a milonga do vento, Ventito morno, vaqueano de tormenta... Essa tropilha de nuvens cinzentas Varrem meus pensamentos... Esses murmúrios, esse vozerio do povo, Me deixa zonzo, meio tonto...”
“Se abanque parceiro, a prosa é longa... Dessas de varar madrugada... Tomas um mate? Está florão de tropa!”
“Sabe, ando sufocado! Preso... Sem vida... Engaiolado... Pareço passarinho quebrado da asa, Que caiu do ninho tentando fugir de casa...”
“Tudo tão confuso... Até já perdi o tino e o gosto... Já não sei se este mate que sorvo É doce ou amargo... Se o que sinto na carne, Nesse couro curtido da vida, É dor ou prazer... Se tenho carne!? Se tenho couro!? Se tenho vida!?”
“Meu palheiro apagou! Alá puchâ! Extraviei a pederneira*... Tens fogo? As coisas vêm... E vão... Passam... As botas furam... As bombachas rasgam... O chapéu pui... A gente fica parado tal qual dois de paus, Perdido numa mesa de truco, Nessas cartas de mentira...”
“Ficamos lamentando a vida... O destino ingrato da colheita rala Desse nada que plantamos... Dessa praga, desse joio que infesta o trigo... E não mexemos uma palha Para arrancar o inço...”
“Sabe... Gosto dessa figueira No alto desse descampado Me dá um arrepio na espinha, Passa uma coisa forte! Essa calmaria mexe comigo... Sempre fugia pra cá quando era guri...”
“Parece até que foi ontem, A aragem fresca do fim da tarde, O gado pastando tranquilo, Uns bem-te-vis perdidos, Como aquele, no lombo da rosilha E as garças branquelas, Canelinhas finas, perninhas de saracura...”
“Me vem tanta coisa... As pencas de petiço... Aquela briga com o Nico Da Comadre Pequena... O tordilho do Vicente Roncando depois daquela rodada... Os bailes no salão do Ernesto, Ah! A Tereza... Me sinto maneado no tempo... Dá uma saudade, um aperto no peito, Me foge o ar, o chão...”
“Lá vêm o comissário e seus dois praças... Etâ gente sem serventia! Não vão me deixar em paz... Querem terminar logo com o baile!”
“Mas bueno, resolvi tudo na calada da noite, Não gosto de choramingo, de lamento... O que tá feito, tá feito! Então faz um favor, Passa lá em casa, dá um beijo nas guria, E um abraço cinchado no mano veio, Pede pra ele reparar o gateado, Para dar meia “lata” de milho E soltar pro banhado...”
“Pro povo... Pode falar que... Uma tropilha de recuerdos Andava negaceando a porteira... Melhor... Diz que fiquei louco, Que varei a cancela do firmamento, Montado num cavalo de vento... Que a saudade era tamanha Que das cicatrizes brotaram asas, E que, voando, voltei mais cedo, pra casa!”