Lá no Cerro dos Porongos
Assim cresceram os dois, com parescença de irmãos. O branco, fez-se maestro no manuseio da pena! O mulato, mais campeiro, com precisão de doutor No manuseio da faca, fez graduação no carneio. Pena e aço tão distintos, mas com vínculo pros dois . . .
Mas, a vida cambia rumos, e a deles cambiou a sina Quando alguém, quase um abuso, puxou o berro pro branco, Mas não poder fazer uso. . .
Punhal parido do nada, arremessado a preceito Brindou enfeite, um adorno, ao se aninhar no contorno Do pescoço do sujeito. . .
Escafedeu-se o mulato . . . Notícias sem precisão, davam notas que o vivente Tinha tombado em pendengas. . . Outros, até comentavam, d’um negro bravo, guerreiro, Que se juntou aos lanceiros da esquadra do Teixeira, Peleava na Farroupilha, c’oas tropas de Canabarro Lá pras bandas da fronteira. . .
Madrugada de novembro, galos inda sonolentos, Os grilos com seus cantares, da graça não deram ares, Como que adivinhando, q’nesta noite teria Som de outra sinfonia no aço dos instrumentos. . . O preço foi muito caro, quando David Canabarro Com receio d’um motim, desarmou os seus lanceiros. . .
Vidas ceifadas no Cerro, sem poder se defender, Quando Moringue, cumpriu a ordem q’um dia, Teria escrito Caxias – Poupe o sangue brasileiro . . . Como se negro não fosse, como se negro por ser, Fosse ausente de valor, tratado com preconceito, Sem direito a ter direito, como uma raça inferior. . .
Era um Deus nos acuda, um salve-se quem puder. . . De longe, presenciou tudo, um aço cortando fundo E o dente do aço arde, sentiu que seria tarde Pois o golpe desferido fez seu pai ajoelhar-se. . . Curvado aos pés do inimigo esperando o derradeiro Que demorava chegar. . .
Punhal parido do ausente, e o inimigo silente Para um filho já descrente tomba diante do pai. . .
Naquele braço esticado, oferecendo resguardo, Aquele filho bastardo, que há anos nem tão distantes, Negara paternidade em troca do financeiro. . . Trocara o amor da negra, que era puro e de verdade, Pela filha do patrão e uma vida de vaidade. . .
O branco, inda aturdido, pela cena presenciada, Guaradava os dois a sua frente, enquanto duas vertentes Vazavam já incontidas. . . O mulato, outra vez, um anjo na sua vida. . .
Quando o dia abriu seus olhos, dando conta do ocorrido, Ficou um tempo escondido, por entre os morros do cerro, Cabisbaixo, estupefato, parecendo c’esse ato, Não crer neste sucedido. . .
A natureza silente, compartilha o genocídio... E por respeito ao que via, silêncio lá nos Porongos Seria a ordem do dia. . .
A partir desta peleia, o quatorze novembro, Nunca mais seria o mesmo. . . O chão semeado de tantos, fazia o verde do pasto Mesclar-se ao negro dos corpos, que a matança Fora feia. . .
Mãos, que não cumprimentam mais e nem mais acenarão, Braços que jazem jogados como procurando outros, Na ânsia de se abraçarem, mas que não mais o farão. . . Pernas que perderam posto, já não conduzem ninguém, Já não sentirão o gosto de poder abraçar potros, Permitindo que seus donos bebam do sul pelo rosto. . .
Dizem os velhos tropeiros, q’inda hoje lá no cerro Se escuta o tinir do aço, lamúrios, gemidos, gritos. . .
Talvez os mesmos domandem a homenagem que não veio A estes bravos lanceiros? Que em troca de liberdade, Defenderam nosso ESTADO, da ganância Imperial, Pagando c’oa própria vida, lá no Pinheiro Machado. . .
Lanceiros, acima de qualquer bronze pra eternizar teus atos, Qualquer monumento é parco pra referir tua memória, Porque pro RIO GRANDE és fato, e acima de tudo um marco Nos anais da nossa HISTÓRIA . . .