Pra Quem Volta à Querência
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Ecoam silêncios no sinuoso das estradas, O contracanto de uma toada tropeira Faz costado nas campechanas trajetórias, São remembranças de uma gesta antiga. E um retrato familiar é o cenário mudo Que dita o compasso de cada história.
Um cargueiro de vivências palanqueadas! Cruzando a cavalo ou a pé pelas estradas, Tropeando peru, porco e boi... Era o ponteiro das tropas encordoadas.
Exaltando provérbios no ritual do amargo De cada caminho ou pouso que cruzava, A voz serena do mais experiente tropeiro, Que palmeando a cuia ruminava pensamentos:
"- Os ataio... Nem sempre encurta as distância"!
Chamava-se João Maria... Na lida campeira um século de tempo. Pilchas simples, cerzidas das estradas. João era sereno como remanso de rio, Andejo como o vento minuano, Forte como cupim em campo aberto E radiante como aurora primaveril!
Entre ditos e causos ao redor dos fogões Atiçava a imaginação e medo nos peões: "A véia tapera dos Morera tem assombração!! E aquele fogo-morto na costa da serra... Ninguém faiz poso na beira do sangão!! Em lua cheia no rancho tosco tem lobisome! Muié vira bruxa no passo do arroio largo, dispois em noite de lua nova... Enreda as crina das mula e cavalo."
Eram histórias de suas tropeadas, De girar ou parar o tempo em campos floridos. Eram façanhas reveladas, histórias inventadas... Eram amores não retribuídos ou escondidos. Era a vida seguindo seu curso pelas estradas. Ah! Seu João-Maria... Era mais vaqueano que o velho - Blau -. E entre as rezas e crenças de sua ciência Também manejava benzeduras. Benzia de tudo, de cobreiro a mal olhado, Cruz de sal ou machado para o temporal.
São palavras bem vivas que voltam a memória E me conduzem nesta ronda de pensamentos. Com o olhar mirando o rumo que se projeta, Ou quem sabe amadrinhado chão adentro. E o seu legado? Ah! Quantas lições... Sua sabedoria e exemplo ultrapassam gerações. É a felicidade nas coisas simples da vida! A amizade fortalecida numa roda de chimarrão. É a honra empenhada no fio do bigode... Valendo a palavra, timbrada no coração Revivo este momento à um tempo Que renasce com a estampa tropeira De João Maria que volta à querência!
Aqui estou após quatro gerações... Sim! Sou a voz, o amor pela terra, a vida rural Com a simplicidade de íntima procedência, Pois tenho na alma histórias e herança O sangue do rincão e a bugra essência!