Alma em Verso
Poesia

O Retratista

Luciano Salerno

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O silêncio ecoa na hora calma... O cerne de espinilho reacende Quando atiço seus rubores E um galito infla o peito pra saudar um novo dia... Pra os olhos ariscos, que buscam imagens, A porta do galpão é moldura Para o céu que, ao longe, Divide o verde da paisagem.

Vislumbro este quadro palanqueado no olhar, Campo e querência guardados há anos.

O arrebol matiza e a sinfonia, matinal, apresenta Singelas notas pra o coração de quem sabe escutar. Ao palmear um mate vejo o quanto a vida é pura - vertente de poesia Frente aos olhos de quem sonha;

Eu enxergo... Tuas cores e sinto teus aromas! Quanto ela...!? Tem a nos oferecer? Muito...! E não nos cobra nada! Tenho olhos de outro tempo Que não cansaram de enxergar limites Na mesma vida pintada pelos poetas Passando, pelo olhar do mundo, despercebido.

E ainda há os que fecham os olhos Em descrença a estes momentos eternos Que, no andejar das horas, não voltam mais! Pobres de alma e insanos de coração!

Assim, vez por outra, A alma encilha um flete bueno, Desses de vencer lonjuras...! Saio a recorrer campo Onde um picaço e um tordilho, Buenos de patas e mansos de arreio, Pastam perto da sanga, na quietude de seu mundo;

Na ponta de um moirão, Onde a divisa se alonga, um barreiro fez morada... ...“a lo largo” a passarada em revoada Ensaia um cantopara depois pousar Nos braços estendidos de um cinamomo, Neste simples palco... Onde a arte viva do campo se expressa!

Segue o dia... Na volta do corredor, num tranco lento, A alma busca refúgio pelo cansaço de estradear!

Volto ao rancho... E as retinas, Povoadas com estas cenas que guardo, São emolduradas, qual retratos, Nas paredes do olhar! - que linda a vida na sina de campeador! No galpão do pensamento estas rudes imagens, - que antes eu mirava pelas janelas do tempo, Entre um mate e outro nas horas quietas - Fizeram-me entender o verdadeiro -sentir-...!

Hoje percebo o quanto andei retratando meus dias... A vida em seus momentos singelos, Registrados no meu tempo... Os semblantes parados, sorrisos amarelados Habitando cenas de campo e alma... Que estamparam a querência!

Em meus olhos retratistas, Lindas são as cores da vida, Que registro o pouco do muito de nossa gente E me fiz voz pelas imagens Guardadas de um bem querer, Para os que virão completar o ciclo... Nascer, viver e morrer!

Sei que me tornarei saudade Quando na parede do galpão, Em moldura, eternizado, me fizerem de vigia... ...mateando num outono, com este sorriso largo E olhos ariscos campeando imagens, Eternizando as paisagens da minha querência, Prolongando a existência de tudo que ainda é meu!