Quando um passaro deixa o ninho
Hoje; meus olhos órfãos de lágrimas Desprenderam-se do eterno outono Desprezaram horizontes largos, Despiram-se de dor e madrugadas E em fim sepultaram mágoas A sete palmos do sonho.
Pois a estrada é um descaminho Pra quem andando sozinho Reponta um fio de esperanças, Que já ganharam distâncias, Que já migraram do ninho.
Infundada é a dor da saudade Que sempre esbarra na tarde, Que nunca se sabe onde pulsa, Faz que se cala – soluça – Faz que dispara – me invade –
A minha vida é assim: Pessoas que passam por mim, Olhos que enxergam não vêem Divinas preces pra alguém Que desprezou nosso fim.
Agora; é reinventar a vida, Redescobrir o caminho, Vestir coração e alma Co’a sobra do teu carinho E enrijecer de ternura O meu amor que figura Num palco que tão sozinho.
Pois não importa o que passa A vida segue a seu gosto, Sempre amanhece no posto, Só a minha aurora é sombria, Preciso acordar no peito O sol que brilha discreto Na escuridão do meu dia.
Dia que fora tão lindo!... – mais claro que a lua inteira – Pleno de luz quimeras, Onde habitaram teus olhos Mais belos que estrela d’alva, Mais ternos que a primavera!...
Ainda vejo teu sorriso Quando recorro a janela Querendo te ver chegar, Mesmo sabendo que as asas Que te levaram das casas Desprenderam meu rumo, Esvaziaram meu sonho E já não sabem voltar.
Neste peito desusado Onde o amor não envelhece, Cuido da prole que cresce Sem descobrir teus afagos, Me recomponho em silencio, Disfarço a dor da saudade, Que sempre chega nas tardes Sem me trazer teu abraço.
Que o tempo pinte o meu rosto Algum resto de sorriso, Que a brevidade da vida Me ensine recomeçar, Que siga batendo forte Meu coração egoísta Que não divide a visita Da solidão que me invade.
Não digo que será fácil Pra recompor nosso ninho, Se falta lua em meu céu Sobram ingênuos sorrisos Pra clarear meu caminho, Pois quem nasceu pra voar Não pinta rastros no chão, O meu pássaro partiu; Abriu as asas voou Repartiu tudo que sou Mas deixou-me os passarinhos!...