Cada infância com seu tempo
Te bombeando, assim, dormindo, neste quarto decorado, fico horas ao teu lado te acariciando e sorrindo. Meu neto... Que guri lindo! Passou o tempo soi viejo foi num upa, num lampejo mas se a idade me golpeia meu sangue corre em tuas veias e ao te olhar me revejo.
Somos de infâncias distintas, fui um piá interiorano criado meio haragano sem adereços, sem tinta. Trazia presos na cinta. um revolver de madeira e um punhal de taquareira que eu mesmo falquejei. Estas eram minhas "leis" nas rusgas de brincadeira.
Eu tinha gado de osso, carro de lomba, tampinhas, trem de latas de sardinhas e um bodoque no pescoço. Um petiço pra ir no poço buscar água em duas pipas. Mas que infância bendita, que vida, que tempo nobre. Se de patacas foi pobre de liberdade foi rica.
Hoje a infância das crianças cruza os céus sem bater asas porque sem sair das casas andejam de toda trança. É que lhes veio esta herança da internet e seus favores. O mundo, com suas cores, se vem pra dentro do lar no botão de um celular, ou pelos computadores.
Não que isto esteja errado, ao contrário, acho bonito, copiar, colar um escrito, games, jogos e outros legados. No dedilhar de um teclado de tudo se tem noção. Mas falta o aperto de mão, o conversar com as pessoas, o banhar-se nas lagoas, os pés nus roçando o chão.
Cada infância tem seu tempo, cada vida a sua história... Feliz quem traz na memória belos e ternos momentos. Não maldigo nem lamento comparo por comparar... Outra era, outro lugar, outras maneiras de afeto, só te desejo, meu neto, que não deixes de sonhar.
O que me dói de verdade, ao se falar de infância, é a humana ignorância de quem castra a liberdade. É a escravidão, a maldade, a exploração em segredo, os orfanatos, o medo, a pobreza por destino, a turba de pequeninos que não conhecem um brinquedo.
Infância... tinha que ser rodeada de coisas boas, verões de sol e garoa, sem certezas, só viver. A infância é um bem querer que não devia ter fim. Ao me ver sisudo assim pergunto as minhas lembranças aonde andará a criança que um dia morou em mim?