Atavismo
Trago ao reponte um destino, um fado, e que me prende a cultivar raízes correntes de aço, grilhões bem cadeados silenciosos, densos, invisíveis. É algo estranho, não nasci no campo, não tive estância ou pingos de lei, mas aqui dentro tenho acalantos pela querência onde me criei. Sei que tem nome esse ardor latente: É atavismo, reaparições, e que renasce nalgum descendente mesmo passadas muitas gerações. Por certo alguém de antigas eras doou-me a sina de apego ao chão, talvez um negro que virou tapera quando em Porongos lhe gritaram - Não! Quem sabe um índio que fugiu da tribo ou um soldado lá de Gumercindo, crente no braço, muito bom no estribo, destes gaudérios que peleavam rindo? Mas também pode ser um pajador, ou um poeta com a pena em riste, vates que sabem versejar o amor para que o mundo fique menos triste. .Talvez eu venha do distante Açores singrando mares pra povoar aldeias, um litorâneo suportando as dores pra ser pendão deste chão de areia. Sou meio assim... colcha de retalhos, colono guapo trabalhando a terra, um missioneiro ao pé do borralho, um rio-grandense da fronteira à serra. Carrego a imagem de tantas Anitas, de Cabos Tocos, guerreiras de brilho, e a ternura daquela mãe solita nas madrugadas acalentando um filho. Sou prisioneiro de airosas lendas, folhas de livros, baús da memória, de tempos feios ou gloriosas sendas donde criou-se minha própria história. Eu fui flechado, mas não sei o dia, pelo atavismo de algum Querubim e desde então, pela poesia, avulto a chama que habita em mim. Sou qual o Boca, lembrei de vereda deste terrunho que dizia em verso: - Eu sou gaúcho e isto me chega pra ser feliz em todo o universo.