O Pouco Fala
Já fazia um “ano e pico” que aquele “quilinudo”, deu “o-de-casa” na frente da fazenda do seu “Juca”. Mês de julho, tarde finda, inverno de bater queixo. Depois de pedir “permiso”, c'um gateado pela rédea, sombrero na outra mão, deu “buenas tarde”, por fim. Ao andar, o rim-tim-tim das “choronas” no terreiro, dava conta, sem dizer da profissão do gaudério. -Eu só preciso dum pouso, disse com todas as letras. - Estou aqui de passagem, pra “Estância do Paredão”, ando campeando serviço, pra lida de “domador”. "Passe no más", disse o “Flor”, o caseiro do seu “Juca”, que fora morar no povo, pra dar estudo pras filhas no Colégio das Irmãs. Foi a noite, e de manhã antes do dia clarear: a lida, já estava pronta, já tinha ordenhado as vacas, racionado a cavalhada. Levantou de madrugada? perguntou o velho “Flor”. -Eu sempre pago um favor da forma como recebo. A gratidão é um louvor, que a gente faz em silêncio, para que Deus possa ouvir, a voz da alma ajoelhada. Pra mim, que moro na estrada, qualquer agrado é um “regalo”. - Não repare como falo, “assim acastelhanado”, eu nasci do outro lado, ali na “Banda Oriental”. Os meus pais, são “doble Chapa”, vivi um tempo por lá, “y outro tanto” por aqui. -“Bueno, con su permiso” vou buscar um barril d'água, trazer lenha pro fogão. O “Flor”, ficou sem ação, diante de tanta franqueza. Mas lá no fundo, a emoção traduzia o sentimento d'alguém q'um dia vivera, igual aquele, sem nome. O frio, o calor e a fome, tinham moldado seu jeito. Via agora, com respeito o irmão, que fora outrora. No mundo novo d'agora, era difícil de crer q'um ser humano tão simples, falasse tanto do outro, quando falava de si. -Meu nome? Já esqueci. Me chamam: “O Pouca Fala”, respondeu, sem perguntar, pois quem vive dos arreios, não tem muito pra contar. A vida, luz de luar: é tênue, porém eterna; quando ascende deste plano, retorna pra d'onde veio. Redepente e de permeio, uma voz chamando o “Flor”, ecoou em todo o galpão: era o seu “Juca”, o patrão, que ao ver o “domador”, chegou ficar tartamudo. Seu “Juca”, esse “quilinudo”, (disse o “Flor”, sarapantado) chegou aqui pediu pouso, num tarde que nem esta: o frio, molhado de vento, e uma névoa qu'escondia o campo, o gado e a estrada, a morada dos andantes. - Tá bem, “Flor,” é o bastante, já entendi o que passou. O tempo se encarregou de mostrar a todos nós, que o silêncio possui voz: fala alto, forte e claro. -Tu vistes, quase tonteei, quando enxerguei esse vulto; possui algo, que convence, qualquer um, por mais letrado. -Me deu gana de saber mas, fiquei encabulado. - “Flor”, eu também, no passado andei batendo cabeça, por esse mundo de Deus. Num de repente parei, aqui no mesmo lugar; onde o “crinudo” parou. Dei “o-de-casa”, e um velho mandou “me chegar no más”. Virei peão, fui capataz, por fim, o genro querido. No mundo dos excluídos, tem baixio, cerro e espinho, tem banhado e pedregulho. Quando quebrado o orgulho, a luz aponta o caminho, para quem for escolhido. O “crinudo” é gente boa: é sério e mui prestativo, aí estão o motivos do nosso Deus, em pessoa!!!