Se Uma Tropa Cruzasse Aqui
-Se uma tropa cruzasse aqui - Com o cincerro da madrinha Badalando até o vitral, Ofuscando a catedral E enciumando a igrejinha. Se a tropa cruzasse a linha Das porteiras da cidade Reafirmando a identidade De primo-irmão do Pampeiro, O seu primeiro tropeiro Se chamaria, Saudade.
E, com certeza eu iria, Para ouvir a cantilena Do cincerro e da chilena Desfraldando a lejania Num trancão de romaria E co'a paciência no olhar, Com o peito a escaramuçar Numa alegria infinda, Más, oigalê! Coisa linda! Se essa tropa aqui cruzar.
Aqui, debaixo do olhar O sonho viria ao trote Nas abas do serigote Desperto pra culatrear, Para que eu possa notar Os rastros que ficarão Na partitura do chão Que os manes fizeram escritas Pra que não fiquem proscritas, As coisas do meu rincão.
-Se um tropa cruzasse aqui- Sobraria um cavalete Que fora pouso pra encilha, Calaria um rádio a pilha No seu último piquete, Voltaria ao caponete As sestas da espora atada, "Tarveis", a égua encilhada Rumando a mesma cancela, Pra sorver o mate dela Na sala de uma ramada!
Se essa tropa aqui chegasse Trazendo um pingo de tiro, Mesmo sem rancho, me atiro Nesta pampa que renasce, A cada potro que nasce, A cada berro de gado, A cada tento sovado, A cada novo motivo De por o peso no estrivo, Do barro que foi pisado!
Que bueno seria o dia De ouvir os cascos, bem alto, Num tropel riscando asfalto, Por esta rua sombria. A Deus, agradeceria Pelo maior dos regalos, Não morreu gado e cavalo, Eu não morri neste centro E guardo o Rio Grande dentro Do poncho que ainda emalo!
- Se uma tropa cruzasse aqui - Bem aqui, nesta avenida Reavivando - o entono - E o telurismo no trono De uma baia esculpida. Eu rumava de partida Sem nem pensar no regresso, No mesmo caminho impresso Que desenharam os de trás, Que hoje o asfalto desfaz Neste "bendito" progresso.
O meu medo é que o ponteiro Se assuste na chegada Ao ver minha gente cansada Nesta tropa de luzeiros, Rezando a falsos Cruzeiros No lume dos edifícios Que se forjaram aos profícios, Pelas razões do meu tempo Que é um eterno contratempo Dos que vivem em sacrifícios.
Até os poucos passarinhos Na surpresa e novidade, Por tamanha raridade Sairiam de seus ninhos. E os "Jões Barreiros", vizinhos, Pra contar a boa nova, Poriam seu canto a prova De asas e bico aberto Entoando pra os de perto Os rastros que a tropa sova!
Imaginem se a murruda Se desvia do seu norte, Talvez fosse a nossa sorte Pra garronear uma ajuda, E dizer, - Volta, "parruda"! Ou -Era boi-, bem simplório Como um grito preventório, Sem querer interpelar, Só pra não se desgarrar Do NOSSO verso ilusório!