Do Lado de Cá da Ponte
A estrada que corta a serra Leva a traz rodas ligeiras Diferentes do passado Com carretas cantadeiras.
Pergunto: Se este progresso Que fez motor pras esquilas, Reduziu as injustiças Dentro da estância e das vilas?
Ontem, mesmo, eu vinha a trote, Bombeando o sol no horizonte, E saudei um rancho tosco - do lado de cá da ponte...
Construção de barro e palha, Beirando a estrada de chão, Flor terrunha da pobreza - que alguns querem tradição.
Do lado de cá da ponte - divisora em geografias e, talvez, da “boa-nova” das igualdade tardias.
Então, conheci teu rosto Curtido a ventos de agosto, Capinando o “abobral” Na hortinha de taquara Por onde se pendurara O viço do porongal.
Atrás do rancho, o matinho Com canários e sabiás, A sincera sinfonia Que vem acordar-te o dia, Gaúcho de mão vazia - braço irmão de saraquás!
Carregando água no arroio - no exercício da paciência – a estrada é a tua querência; o verde a erva, apenas, teu pampeano minifúndio - e um sonho de ter ovelhas...
Do lado de cá da ponte, O santa fé do teu rancho; A cambona presa ao gancho; Luz fraca de lamparina; Sapos iguais recitando Os versos que a noite ensina.
És o pago maturrango - o que não lança e não monta; lá, na venda, paga a conta com dinheirito contado - fruto de safra ou roçado, e o mais com que se defronta.
És o Rio Grande sem voz, Que o arame fez encerra; És guerreiro de outra guerra - que o pobrerio faz coluna; és a própria erva-caúna; és o Rio Grande sem terra”