Eu Vi Deus no Meu Rancho
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Eu montava meu sebruno, Tropeando um sonho reiúno, Desperdiçando horizontes... Sedento, esbanjando fontes Prateando pés de coxilha. Eu não via maçanilha Bordando vida no campo, Desprezava o pirilampo Que punha luz na minha trilha.
Não fui Moisés, o profeta Que viu Deus na sarça ardente. Achei meu Deus no poente, Nas tintas rubras da aurora... Num reflexo de espora Que o sol ergueu do nascente!...
Seu nome já não silvava Nos meus lábios de pagão, E a milonga já faltava Nas cordas do meu violão, A poesia escasseava No poço da inspiração.
Então, vi Deus no meu rancho. Entrou, sem pedir licença, Pois há tempo era presença Constante onde eu morava. Só eu que não o enxergava, Por padecer da doença Que nos rouba toda a crença, E que aos poucos me cegava...
Quem me abriu os olhos turvos Pra lucidez da estrada Foi tua luz, prenda amada, A quem faço serenata!... Tua fragrância de mata, Teu silêncio de oração Eu bebo no chimarrão, Por tua bomba de prata!
Descobri Deus no meu ser, E em tudo o que me rodeia: Na face da lua-cheia, Na justa luta renhida, Na mão que não vê medida Pra sofrenar o sofrer. Descobri Deus no morrer E em toda a forma de vida!
Eu vi Deus lá no meu rancho, Ao voltar da marcação, Desencilhar o alazão E o libertar no piquete... (Arreio no cavalete ou estendendo o xergão.)
Eu vi Deus lá no meu rancho, Quando peguei a cantar: Vi meu canto se tornar O mais sincero louvor, Fechei o rancho pra dor E abri meu peito sem mal, Era dia de Natal Quando descobri o amor!...