Fuga
I Concurso de Poesias Gauchescas – 31º Rodeio de VacariaPublicado em
Sinto que é chegada a hora. Canto em versos minha voz, que guardei nas grutas escuras e, agora, deixo-a fugir sem pena e, sem medo... é chegada a hora...
Dispo-me dos ventos de agouro... Visto-me dos berros e uivos dos que campearam pastos, pra matar a fome de safras e colheitas fartas, que quase perderam-se na seca...
Entrego-me às mãos vazias que se estendem a pedir ou dar clemência... A mostrar os calos, das enxadas que reviraram a terra, buscando raízes enterradas e obscuras, no amargo das fomes escondidas...
Rasgo-me na falta da seiva que envernizou os caules, dos braços abertos a orar, sem saber que a reza não garantiria o fruto, por saber florida a estação das cores.
Volto-me pro cerme... Curando a ferida viva, estanco a lágrima que verte, escarlate e úmida, na face murcha e muda das figueiras tristes, de copadas magras...
Despeço-me dos verdes e dos capões antigos... Que muito abrigaram as fugas de calçados parcos. E, garantiram fogo pros fogões gulosos que queimaram noites e fritaram dias, pra que a madrugada descansasse muda, as barrigas cheias.
Perdoo-me dos anos... Enterro os restos dos verões em festa, onde dancei sorrindo com a bem amada... Onde plantei sementes numa terra virgem que gerou meus filhos, e os fez escravos dessa nova crença de buscar estradas...
Prometo-me distâncias... Esperei contrito e agora, vejo que o que mais queria azedou-se ao leite que, fundindo em queijo, foi salgar o soro que entreguei aos porcos..
Reviro-me na cela... Nesta prisão de nomes que registram posses e carimbam dotes... Sou mais um rebelde! Não saí aos meus... Pois neguei galões aos que voltavam firmes das revoltas mortas de um lutar em vão...
É chegada a hora... Antes que se faça tarde, pegarei o rumo dessa estrada longa e serei poeira numa nuvem densa... Chegarei mais cedo!
E serei mais um a cantar poesia num céu enfeitado de poetas loucos!