Alma em Verso
Poesia

Açude Grande

Joseti Gomes

VIII Tertúlia Maçônica da Poesia CrioulaPublicado em

O piá nasceu num rancho plantado em cima da terra registrada com divisas de águas do “Açude Grande”.

Mirrado, de pernas finas, palavras presas e sonhos... Desejos de corredor... Batizado por “Luís”, um guri solto nos campos onde cavalos e bois comiam palhas de arroz na volta de um secador.

Quando a chuva vinha mansa para uma estada comprida, o “Açude Grande” crescia. Ao derramar suas águas afogando pasto e brejos naquele espelho gigante com moldura de aguapés, tudo, em volta, renascia.

O guri não tinha medo. Banhava o corpo franzino na imensidão cristalina estendida em quietude. Nenhum sinal de perigo na ousadia da infância, ali, na taipa do açude.

Sempre assustava os pais quando caía na água fingindo morrer na guerra. Ele banhava os sonhos dentro daquelas águas e mergulhava bem fundo, pois não viera ao mundo pra ser um peso na terra!

Cresceu demais, o guri… Sentado junto da taipa, do seu velho “Açude Grande”, sentiu que chegara a hora de escolher o seu caminho. Pediu a bênção pra o pai, pra mãe pediu proteção, pra, depois, seguir sozinho...

Pegou seu rumo na estrada. Na mala, poucos pertences: sonhos, coragem, anseios e o recorte de uma imagem, se acaso sentisse medo, para lembrar de onde veio.

Ele partiu num verão... Deixou, pra trás, primaveras. As folhas que desprenderam no outono daquele ano, sofreram com o abandono que congelou a esperança na solidão das esperas.

Os capões daqueles campos já não escondiam medos, daquelas tantas histórias contadas junto do fogo. O açude ficou pequeno com águas turvas e rasas, já sem a sede das casas foi morrendo pouco a pouco.

O caniço e o bodoque, pipa e canoa de palha, trem de lata... abandonados... Um mundo inteiro de infância chamando pelo seu nome! Os pelos do seu petiço resistiram, acenando, junto aos arames farpados.

Não se sabe pra onde foi... Por certo, ganhou o mundo que se rendeu ao menino que aprisionava palavras, que fingia estar na guerra e sem entender de terras plantava sonhos no açude e renascia das águas!

Quem sabe lembre, um dia, das brincadeiras de um piá, de um inocente aprendiz. Quem sabe, sinta saudades e volte a pular da taipa fingindo morrer na água, que só sabia ser grande pro seu menino, Luís...