Guerra e Lavra
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Nesses tempos Já não havia tempo para a paz... A boiada foi pastar silêncios no fundo da invernada, O arado perdeu o jeito de brincar com a terra as estâncias aquartelaram-se em trincheiras e o peão campeiro se alistou prá guerra!
Os tiros já não partiam de laços enrodilhados e a campereada louca dos soldados não procurava reses estraviadas...
Foi nesses tempos, quando o campo se feria em lança e bala e era roçado por foices de metralhas que o gaúcho viu, sob as clareadas nebulosas das batalhas, alguns homens, mulheres e crianças que marchavam incontinentes com bandeiras e fardas diferentes em direção contrária à das peleias.
Levavam sobre os ombros as enxadas qual baionetas e lanças perfiladas seguindo clarins imaginários. Alheios aos combates e trincheiras não buscavam as terras da fronteira e não tinham feições de adversários, mas carregavam a cor do sol entre as melenas e se armavam de rezas e novenas que desfiavam nas contas dos rosários!
Foi justamente nesses tempos, quando todos entretiam-se com a guerra que eles galgaram o íngreme da serra dependurando colônias sobre os morros. Tinham o céu do dia em suas peles claras e olhos banhados do verde que plantavam nos horizontes e aléns que derrubavam para a esperança e o sonho das coivaras!
Sim... Foi justamente nesses tempos, quando o centauro guerreiro riograndense semeava chumbo e corpos nas coxilhas, que o machado adelgaçou-se em lanhos e trilhas para fluir lonjuras ao imigrante que, embora sem ouvir as clarinadas, engatilhavam trabalhos e alvoradas na sina aventureira de ir adiante!
O alambrado criou folhas e cachos e a cabriúva dividiu-se em ripas prá represar os mananciais do vinho.
O verdor das espigas fez-se loira para pousar no bojo do pilão e o forno de barro engoliu brasas prá amorenar as dádivas do pão!
Enquanto a história fazia heróis e prisioneiros, multiplicavam-se nos lares e celeiros o milagre dos filhos e dos grãos!
É... Foi justamente nesses tempos quando os homens disputavam os horizontes, que a enxada capinou o véu dos montes para plantar sementes de cidades que nasciam com dialetos de além-mares e exibiam nas vitrines dos pomares os frutos naturais da liberdade!
E quando o último tiro fez-se ouvir anunciando o final dos entreveros e o soldado voltou a ser tropeiro aquartelado sob a quincha dos galpões, aqueles homens de outro continente já sorviam o futuro e a água quente nos rituais dos nossos chimarrões!
Agora... Em outros tempos, mesclaram-se as raças e as culturas formando uma outra estampa de gaúcho não menos guapa, porém mais capaz... Que tem nos olhos o verdor da terra, na alma bélica o furor da guerra e nas mãos de covas o plantio da paz!