Do Alfa ao Ômega
Havia uma rua... Uma noite de lua... E, inevitavelmente, um borracho... com a alma de uma estrela xirua...
Em seu córrego negro, como uma cobra campeira serpenteando em trevas, a rua perfurava as vísceras da noite... E noite... bruxa bandida a gauderiar no escuro... Languidamente espionava o campeirar da lua...
O pinguço boêmio arrastava o porre por entre postes que pariam luzes estranhos cordões umbilicais...
Há sempre uma china no torpor do álcool E um triste adeus a justificar os "goles"...
Quando a imagem dela relampeja uma saudade, somente o "fogo" que encandeia a mente faz suportar a dor e a ansiedade que o coração ferido, insuportavelmente, sente...
Uma coruja acompanhava o vulto aparceirando, curiosa, aquele taura, sem entender porque e que tantas curvas eram cavalgadas numa cancha reta...
Os olhos turvos na pracinha morta miravam horrendos vultos transparentes e parecia, na visão opaca, que almas disformes de zumbis crioulos tomavam mate... Como fossem gente!
A lua... Cheia de cambichos e intenções de malevas, descaradamente, estuprava a noite...
E a noite... Nas indecências de quem está no cio, Escancarava-se toda... recebendo a lua... As árvores... Acenavam as folhas para a brisa fresca e movimentavam o asfalto com o balé das sombras...
Engolindo estradas, ele bebia esquinas como um peão sem conhecer o lombo, ele gineteava os pangarés de assombros, procurando... sempre procurando... Nos labirintos e confins da noite, os sacis e boitatás teatinos que são parceiros nessas horas ébrias, mas que riem sarcásticos dos tombos...
A alameda, qual soldados verdes marchava estática no beiral da rua, direcionando o "pau d'âgua" em seus aprumos, como se o destino, no cambiar dos rumos, fosse um chamamé tocado num fandango, que faz as pernas bambas que suportam o corpo trançarem os passos e dançarem um tango...
As horas? Que importava nessa hora, se não há horas nesse tempo incerto... Sabia apenas que existia estrada e que ela bastava para fazer chegada por mais distante que estivesse o perto...
Aquela ingrata que o deixou de porre renascia... translúcida... na mente e a dor baguala que flechava a alma queimava muito mais que a aguardente...
Embebido no álcool não ouvia um barulho de motor lá no horizonte, mas os olhos atinavam, embaçados, as luzes guapas que clareavam a fronte...
No pó... o corpo que voltou ao pó... No chão... a inércia de quem foi um corpo... Um bêbado triste que vagava só e o amor que finda num cupido morto...
A vida fez se trevas... como a noite! A lua fez-se finda... como a rua! E a noite... simplesmente... fez se noite!
Agora... Somente as árvores acenam as folhas para a brisa fresca movimentando o asfalto com o balé das sombras...
Na vida que continua... Segue apenas uma rua... Uma noite de lua... E, inevitavelmente, um corpo... que devolveu a alma para a estrela xirua.