Para Viver de Saudades
Depois que vim lá de fora nunca mais contei estrelas Com tanta luz na cidade, mal e mal consigo vê-las. Depois que vim lá de fora muita coisa em mim mudou Talvez não seja a metade de tudo aquilo que sou.
Depois que vim lá de fora nunca mais peguei na enxada Tão pouco ajudei os galos acordar a madrugada. Não armei mais “aripuca” nem tomei banho de sanga Não mais encontrei Maria no velho pé de pitanga.
Não cantei mais de improviso nas tertúlias de galpão Mudou o brilho dos olhos e o gosto do chimarrão. Não mais ordenhei tambeiras para beber o apojo E a velha junta de bois não viu mais canga e ajojo.
Já não tenho mãos calosas da minha tesoura de esquila E em vez de sair pro campo o meu destino é a vila. Nunca mais levantei cedo pras carreiras de domingo Neste rodeio de pedras não tem lugar pro meu pingo.
Não sinto o vento na cara me esvoaçando a melena Aqui a saudade é grande e a liberdade é pequena. Não vejo a lua de prata clareando o espelho do rio Calou-se minha guitarra ao ver o peito vazio.
Nunca mais eu vi as balsas nas enchentes do Uruguai Nem mesmo o vulto na proa e o sorriso do meu Pai. Não sinto mais o dourado golpear com força o anzol Brilhando o lombo nas águas de contraponto com o sol.
Não escutei mais o ronco do Bugiu chamando chuva Nem melei abelha braba num oco de cabriúva. Quando eu olho pra trás só vejo o vazio do nada O vento apagou meu rastro na poeira rubra da estrada.
Hoje me sinto perdido sem saber o que fazer Meu campo virou cimento sem espaço pra correr. Depois que vim lá de fora nunca mais contei estrelas Com tanta luz na cidade, mal e mal consigo vê-las.
Dizem que a lembrança viva enxergou solo fecundo Para plantar a saudade nas restevas do meu mundo Desde então deixei meus sonhos pra encarar a realidade Deixei de viver no campo para viver de saudades.