O campo que trago
Resvalo a mão na testeira de um preparo de trança chata, de corredor e arremate feitos com a lonca da zaina, que envelheceu nos arreio e depois de muitos anos me regalou pros recaus esta prole com sua marca -salga e calçada das “mão”-.
Solto a barbela do freio, com o sol já cabresteado e “encocheirado” no poente. Folgo a boca desta potra, que logo me ínvida os sentidos neste cenário que trago e dão sentido pra gente.
O aroma que os arreios exalam depois da lida, adentram pelas narinas recompondo a nossa essência com geratrizes terrunhas donde estribamos a vida.
O cheiro das barrigueiras pingando suor de cavalo, sacia a sede de campo, enquanto os olhos se inundam verdejando uma planura de repechos e canhadas que a luz da alvorada encontra a própria ternura.
O garbo entono emplumado dos quero-queros valentes, combatentes guerrilheiros dentre todos passarinhos, Investem voos rasantes contra um cordeiro curioso que retoça perto do ninho.
O João de barro abre o peito numa tronqueira de angico tal um aboio de tropa chamando a lua em reponte, enquanto o sol no horizonte estende a sombra das grotas.
É este o chão que eu comungo pelos fogões do meu pago... ...é este o chão que eu retrato quando o fiel do rebenque abraça o punho canhoto e o chapéuzito maroto se ladeia pacholento bem tapiadito pro lado.
...é esta sina andarilha de sustentar nas "encilha" o dia que nasce feio. Chuva fina no varzedo e o vento brandindo o poncho no parador do rodeio.
Cá nas plagas que resojo meu memorial campechano... ...templa rural e boerana, desbravada com as mãos na enxada, com tropas e arreador, pra sustentar os moirões cravados antes de nós e que balizam os rumos dos avós no fiador.
Singular nomenclatura que escrituraram seus feitos perpassando gerações... ...na junta mansa de bois, no boleio firme do laço, na garantia que o braço boleava certeiros tirões.
Índia memória encravada na sina bugra empedrada dos bretes e dos mangueirões.
Esporas riscando a terra cegando o fio das rosetas, que o contra forte das botas garante sua picaneada no rascunho das paletas.
Transcendência placentada numa tapera de campo... ...sementeira semeada a cova de casco de potro.
Antes de tudo... meu sangue! Antes das guerras e hinos... ...antes das coroas e dos sinos na impostação das virtudes.
Antes mesmo das bandeiras das lanças e clarinadas... ...lenços, punhais e adagas alambrados e fronteiras.
Nos já “tinha” nossa história calçada nas nazarenas. O respeito aos de antes... ...a firmeza pra os de agora. E pra os depois... ...e pra os depois, este cenário, retratado num poema.
...depois de um dia de lida o aroma dos arreios recompõe a minha essência... E me põe bem de a cavalo pra emoldurar o meu pago. Pois amanhã, tudo de novo... O fiel na mão canhota, o chapeuzito maroto bem tapiadito pra o lado, E na alma este universo. Este... é o campo que trago.