Entre perfumes e risos
Na penumbra do salão eram risos que falavam e desfaziam contratos desses de fios de bigode. Falsas juras e penteados, perfumes e gargalhadas ofuscando lustres velhos de luzes adormecidas.
Nas mesas, cartas e fichas. Borrões - marca nos copos - eram beijos, sobrepostos, dos carmins de enfeitiçar... Garrafas gordas e frias com as barrigas vazias zombando do frenesi do esvaziar de guaiacas.
A fumaça dos cigarros tinha cheiro e tinha marca. Chegavam feito monarcas com ares de coronéis. Mas lhes faltava talento! E as gurias diplomadas escolhiam companhia pelas pedras dos anéis.
Na bruma densa da casa a dama mais desejada arrancou “miles de réis”, suspiros e lucidez, pensamento, sono e calma de quem falava co'a lua e rabiscava em segredo versos mesclados de medo pela inocência da alma.
Perdera a conta dos copos que virara nesta noite. Já não ouvia as risadas das damas e dos senhores. Olhos ardendo em ciúmes, avermelhados qual brasa, incendiavam na casa feito tochas encarnadas queimando, iluminadas, pelo furor de seu lume.
O pano verde da mesa engoliu todas as fichas jogadas de uma só vez. Já não restava mais nada, somente a velha calçada com os seus braços abertos de carnes magras e nuas - deitada à margem da rua - lugar de afogar tristezas nos copos da embriaguez.
Tomou o último gole da cachaça do orgulho, pegou a tinta da pena e rabiscou um poema nascido do seu fracasso:
“Tolo fui ao desejar-te com este amor sem valia, sem lastro, sem garantias. Deixo junto da razão, sangrando, meu coração que foi teu, todos os dias...”
Guardanapo de papel recebe o verso rimado, um beijo todo amassado que fica em cima da mesa. Saiu meio cambaleando, foi se deitar no relento. Sina comum desses tempos entre os loucos dos poetas e as damas, lá do bordel.