Alma em Verso
Poesia

Ementário da Alma

Henrique Fernandes

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Morri antes de mim... ...sucumbido neste tempo de vaidades e ganâncias... Morremos eu e a estância... galpão, mangueira e palanque. -arquitetura entalhada nos relicários da alma-... Restos mortais de um tempo, que o próprio tempo apagou... Morri bem antes de mim... emoldurando a memória na cicatriz empedrada que a taipa de pedra moura ostenta a própria raiz...

Assim fora o meu tempo... Edificado no espaço, de uma linha imaginária que delimita o que sou. Talvez um vulto de outrora tentando encontrar o hoje, pois o ontem... já passou... Perdi a conta dos anos entre os nós de uma taquara que como eu, tapejara... envelheceu e secou...

E no umbral dos pensamentos, me encontro “lejo”de mim ... ...”alpargatiando” a existência no ermo dos corredores como quem busca os valores extraviados nos confins... ...valias que o sentimento guardara como um tesouro pois nem as cifras do ouro pode compra-las assim...

O valor de um bem querer... ...a riqueza da humildade... o abraço sem maldade, o sorriso sem desprezo... A compaixão a um igual, que por azar ou destino perdera o rumo e o tino trocando o bem pelo mal... ...o valor de perdoar e estender a mão amiga... ...de acalantar uma dor, com o balsamo do amor para a cura das feridas...

Ahh... Paisano... ...será preciso morrer para entender este mundo? pois em menos de um segundo a terra treme de raiva e leva pra junto dela lotes e lotes de gente... ... será que a dor inclemente paga o erro de uma culpa “reincenando” o calvário condenando um inocente?

Seria lindo Paisano...! Bater tição de espinilho reavivando as brasas d’alma, pra fogonear madrugadas, sorvendo a seiva de um verso... ...pitar a calma das horas, reascendendo a memória do meu pequeno universo...um mundo de simplicidade, que o bem maior é a amizade no mais puro sentimento... ...um mundo de fantasia, que a realidade é a poesia escrita com mãos de vento!

Sim... morri antes de mim... Resignando lamentos pelos tentos ressequidos que de a cavalo remendo bem na ilhapa da saudade... ... e enrodilho recuerdos ungidos de tempo antigo que vieram morar comigo nos campos da eternidade...

Fidalgo tempo de antanho, que carreteando o passado nos engarupa o legado de uma vida que cruzou... ...em memorial as distâncias que a trote largo trilhei, pois junto a estância findei e voltei ser o que sou... Ruínas de pedra e barro, e madeiras carcomidas, que guardam mais que uma história... são restos mortais de glória das xucras batalhas da lida!

E como eu... Um buçal sem gargantilha de cabrestilho atorado... as esporas sem rosetas de aço enferrujado... ...bacheiro de lã trançado que ainda guarda o cheiro de algum lombo suado. ...as comitivas de agosto e as rondas em lua cheia, rodas de mate e causo, num cenário mobralesco de um galpão de estância véia.

- morreu o tempo das flores colhidas nas primaveras, sacrificando seu ciclo de sementar florações para ofertar corações pelo amor de uma donzela... - morreu o tempo da esquila no matraquear das tesouras... que afinavam seu canto na pauta crua dos velos,pelo nascer das auroras... - morreu a voz do ponteiro chamando a tropa na estrada, tropelias, clarinadas, changas de doma e alambrado. ...calou a voz do cincerro, junto ao rangido do basto, que se apagaram no rastro dos cascos e das esporas... - morreu o tempo do vento, que mesmo livre e sem dono sopra ares de abandono salmodiado em desalento.

Busco razão e apego, neste erudito terrunho que o campo por singular, nos da razão pra sonhar e cantar a própria terra... tatear a face da alma, no espelho das aguadas de uma cacimba empedrada que guarda a paz das taperas... São linhas de um testamento que o baú dos pensamentos esqueceu aprisionado nos porões da minha infância... ...e assim neste ementário, reescrevo meu inventário do que me resta de herança...deixo o pago e as planuras, sesmarias de ternura pra o pastejo da esperança...