Carta Aberta à uma Cordeona
"Cordeonita" bem querer De saudosa ressonância, Guarda ecos das distâncias Com feição de alma antiga. Sinto pulsar em meu peito, E em meus dedos calejados O doce dos teus teclados, -Velha gaitita amiga-...
Contigo tive sustento, Ergui minha própria morada; E nos bailes de ramada Botei o soldo no bolço; Garanti o pão na mesa E por dentro das "bombacha" Botei carne e botei graxa Na minha "Tropa de Osso".
E feito um filho no colo: Te aconcheguei num abraço. Das alças feitas de um laço Que me fizeram regalo: Pra que eu sentisse tocando Ao desdobrar o silêncio, O mesmo amor que "Florêncio" Sentia por seu cavalo...
Fomos Latinos, Surenos... Fomos um todo, num só! Fomos o vento e o pó. Da pampa agreste oriental. Contigo, -velha cordeona-... Enrijeci o tutano E atravessei o oceano Cantando o pago bagual.
Só tu sabes dos medos, Segredos e desencantos E das "cosas" que amei tanto Como um "baile de fronteira". "Juntitos" envelhecemos E chegamos no arremate
Lavando a erva do mate Na cacimba missioneira.
O rancho ainda é o mesmo Vejo meus filhos crescidos; Agora amadurecidos Regados de luz e fé. E tu, velha cordeona, Meu instrumento de guerra: Contigo volto pra terra "Na chama de um chamamé".
E ao findar a jornada Deste plano para o outro, Seremos "solo nosotros" Cruzando o rio com o barqueiro. E neste instante taipeiro Que me translado em reponte, Ao invés do tal Caronte Me Voy com "Pedro Canoero".
Por certo transcenderemos Sem precisar de inventário, Pra seguir o itinerário Junto a coroa de "Rosa". E na quietude solene Do dedilhar de algum grilo, Eu me depare com o Rillo Pra mais um dedo de prosa.
Deixo a ti minha "Cordeonita" Esta carta de acalanto... Seremos vida e encanto Num cantar "Chamamecero". E assim perpetuaremos No crespo dos pajonais Das barracas do Uruguai D'algum encontro costeiro.
E a peonada da estância, Recordará os acordes; Dirão da gaita do "Borges", E do sotaque fronteiro. Seremos luz de candeeiro Iluminando a Querência, Na mais genuína essência "Do coração de um gaiteiro".
E me despeço de ti Com um verso da minha lavra! E desta vez com a palavra Faço a minha despedida. Seguirei sempre tocando Na forja que me fiz taita. -Não fique triste, minha gaita! Te espero aqui, noutra vida.