Memorias
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Me vi nascer, de repente, como brota um manancial que, na inconstância de um rumo, toma a forma de vertente...
Recebi sons de ninar que me embalaram o sono; pelos grilos, sapos, aves; o suave andar das águas, relinchos, berros, latidos e um vento norte a cantar...
Tive um berço de canhadas rodeado por muitos montes; e um retoço caborteiro dos andejos horizontes. Vi muitas luzes e cores, de sóis e luas, trazidas; vi estrelas escondidas nas furnas negras das noites; Trazendo a noite por diante, vi a Boieira, em tropel; e depois, num mesmo instante, me trouxe a D’alva, contente, um sol vermelho, nascente, todo embrulhado de céu.
Os ventos me levantaram e mirei os horizontes... Senti, nos pés, os repontes do pastiçal convidando; e vi meu corpo andejando apoiado pelos montes...
Molhei meus pés nas aguadas, brinquei com luas nos cerros, senti sons, pelos enlevos, que o campo aberto trazia; revivi, na calmaria, um sonho, depois da infância: Embuçalar a constância de ser eu mesmo algum dia!
Encilhei um potro baio - ruano - tanta coragem... que me levava à visagem: Horizontes de fartura... Me entreverei nas lonjuras, campeando as velhas ganâncias; Cansei o potro, as distâncias, não achei o que campeava... senti falta do que estava guardado na minha infância...
As léguas iam e vinham, pra trás, os rastros ficavam; pra frente, os olhos não viam, nem sei mesmo se olhavam... O potro baio cansado, meu peito tomando aprumo, dei de rédeas pro meu rumo, retornando pro passado...
Me senti na bagualada retoçando pelos cerros, aprendi com os meus erros pra não repeti-los mais... Do vento, tive a tenência que me afastou do desterro: Segui a égua madrinha de uma saudade daninha, que me levava à querência com carinhos de cincerro!
Voltei como a primavera, com certezas de cigarra; com lamentos de guitarra me denotando o que eu era... Saudade atada nos tentos, potro baio pelechado, olhar feliz, renovado; luzeiro novo por dentro...
E renasci, de repente, como brota um manancial; que, na constância do rumo, toma a forma de vertente pra se encontrar, afinal...