inventário da saudade
Rol de bens a inventariar: 20 quadras de campo de baixa qualidade; Casa, galpão e mangueiras muito antigos e mal conservados; 850 reses de gado geral; 22 cavalos de serviço; 60 capões de consumo; 4 cachorros ovelheiros. ..................................................................................
E a memória de seis sofridas gerações... Com quem ficará? ..................................................................................
- Com quem ficará?
Todo o campo se divide, casa, mangueira e galpão... O gado é “ponta cortada”... E o bem maior, não é nada pra o conceito do inventário.
O bem maior são as almas e as memórias já passadas, que não conhecem partilhas e que vivem encravadas e perdidas pelas sombras, pelos cantos dos galpões... E nas sangas e nas grotas e nas curvas das picadas... E assobiando pelos ventos que cortam as invernadas compartindo solidões...
E essas almas esquecidas não reconhecem cartórios, nem os timbres, nem os selos que conferem propriedade... E, por certo, nem os zelos que a ganância distribui... As almas, por certo, entendem quem sente e vê seu passado não apenas como um bem, que se vende ou é comprado... Mas sim como um sonho herdado que nem se estima valor.
O que pra uns é mercado que engorda os bois e as contas, pra outros é casa e vida e, por certo, guarda a lida, as esperanças e os sonhos das passadas gerações.
O que pra uns são aguadas que dão de beber ao gado, pra outros é porto e banho nas histórias dos verões. E as várzeas desmerecidas pelas mortes das enchentes, são a própria alma dos campos que revive o que matou...
O que pra muitos é ruína de um fortim que não tem luxo, que não comporta confortos nem móveis sofisticados, pra outros é casa e história que contam as tantas vidas que por ali já cruzaram...
A voz das avós, guardada, no ranger das dobradiças das muitas portas antigas... Que o formal de uma partilha sequer atribui valor...
Nenhum juiz ou cartório pode melhor entender o que as almas das estâncias querem e podem contar: De forno e pão das avós... De laço e doma dos pais... Dos apartes ancestrais e tropas no Camaquã... Dos bisavôs boleadores caçando boiada alçada das gadarias baguais...
Por certo as vidas passadas são veladas testemunhas que bem poucos ouvirão... E nenhum advogado pedirá suas palavras ou mesmo seus bons conselhos na partilha que há de vir...
Quem sabe, um dia, a tristeza inventarie os recuerdos no cartório das saudades e a justiça e a verdade venham meter o focinho no buçal da realidade...
E que as almas das estâncias bradem contra as injustiças e as misérias ambiciosas que profanam sem pesar...
E, quem sabe, quando a vida abandonar as retinas dos muitos olhos sofridos que perderam seu lugar, os juízes do universo promulguem votos sublimes, exilando suas almas a sempre errar e vagar...
E seremos a saudade e as vozes das dobradiças... E seremos a memória e o calor de nosso lar...
Seremos o que não cabe no formal de uma partilha... Seremos alma de estância:
- Outros poderão contar!...