Comensal dos Quatro Ventos
Amanhecidos silêncios revoam nas asas tristes dos tajãs pelas canhadas... E os espinilhos refletem, em gotas iridescentes, as fracas luzes do dia.
A tolderia desperta envolta em paz, pelas sombras espessas da cerração.
Sangue de cobre na pele, olhar rasgado de pampa... Melenas esvoaçantes mal contidas pelas vinchas.
Imerso na trama pampa, de seu poncho de oração, Vaimacá desperta os toldos, evocando aos quatro-ventos os lamentos das distâncias... Saudando os raios da aurora, em litúrgica oferenda de comensal da planura... ......................................................
O Charrua entende a vida como lagoa tranquila onde os ventos do futuro marulham mágoas e dores... Entende que sua gente obedece a paz dos campos em serena condição...
Seu pai foi guerreiro altivo, assim como seu avô... E sem saber o que sente, Vaimacá mesmo pressente seu mundo inteiro a ruir...
Como felino acuado que apequenou território, sua gente amarga a fome das perdidas gadarias... Desde que a gente de longe fez da terra um território de sua posse e mandado, os gados já não florescem como os trevos pelos pastos... E mesmo os próprios cavalos, senhores destas planícies, já não costeiam manadas pelos curvas das distâncias... Segundo o branco exilado que vive na tolderia, a gente branca extravia tudo de bom que se tem: O gado, matam sem fome, pra vender o couro e o sebo... E cavalo é bem de posse reclamado por um rei...
Segundo diz o tal branco, a que lo chamam de Fierro, essas gentes de outros longes nos tratam por infiéis: Talvez por não entendermos as juras à cruz sem nome de um deus que não nos pertence e nem habita estes campos.
Diz ainda esse tal Fierro, que nos tratam por selvagens... Assim nos chamam, talvez, por defendermos o nosso... Tal qual os tigres vivemos, retirando da planura o sustento e a liberdade...
Não entendemos da posse que reclamam destas terras, onde o nosso antepassado plantou toldos pelas várzeas...
O que entendemos da terra vem dos cantos das seriemas e das asas do ñandu quando escapa às boleadeiras...
O que esperamos da terra vem das unhas dos jaguares, defendendo suas proles nos pedregais destes cerros...
O que vivemos na terra vem do bagual que domamos, com carinho e com paciência... - irmão da vasta planura - que nos sustenta e conduz... O que aguardamos da terra vem da luz de cada aurora, que saúda e abençoa o viço de nosso filhos e as dores de nosso mortos.
Por isso sangro às auroras esta palavra sentida pelas artérias sofridas destes caudais da garganta...
Este meu canto-refúgio... Este meu grito-lamento... Este meu canto-sustento, tal um soluço de pranto... Este brado que levanto à rosa etérea dos tempos:
Viverás, nação Charrua, para sempre nos silêncios...
Seremos dor não escrita no Sul de nosso desterro...
Nossa voz será escutada e ecoará nestes cerros... Como um lamento sofrido, viverá na voz dos ventos.
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Por isso evocamos toldos na distância destes tempos... Por isso somos os ecos dessa perdida oração... Imersos pelos silêncios saudamos luzes de auroras... Lamento de pampa índia que verte do coração.