Cordeona
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Pobre cordeona que chora nas mãos de tantos poetas! Nas minhas trovas inquietas tua cadência será outra. Se algumas vezes a potra desta vida me quebranta, meu sangue é seiva que canta sob a eclosão de esperanças, porque o chilrear das crianças é sol de um novo amanhã.
No tronco de tarumã dos anseios de minh'alma teu ressongar traz-me a calma de renovada energia. Celebras, na liturgia de uma tradição liberta, a querência, cancha aberta dos sonhos evolutivos, desses heróis redivivos que atropelam o futuro.
passando o tento dos furos das guampas da tradição, ajoujas a evolução aos valores do passado. Por isso meu canto, eivado de telúricas raízes fermenta sob os matizes do turbilhão em que estua o porvir, que continua o sonho dos ancestrais.
À luz de novos ideais, cordeona, tu cantarás para mostrares aos piás, que cabresteiam auroras, que em teu canto rememoras um patrimônio de heranças que vem da ponta das lanças à forja das oficinas até embretar nas turbinas a estrela que luz nos rios.
Teus sonoros atavios de nossas guapas legendas: desde as ingentes contendas pela expansão de fronteiras ao labor nas soalheiras, que lança da terra moura a semente redentora que faz a mesa do peão, uma pletora de pão e uma canção à lavoura.
És o filho dos anseios de um povo que luta e sofre, que vem de bento e de Onofre quebrando grilhões e freios. E hoje, aos mesmos rodeios volta a mesma rebeldia que encontra em tua harmonia, sob os responsos da sorte, a mesma fibra ante a morte e a mesma fé que ainda o guia.
Cantemos, velha cordeona, sob o mesmo diapasão a seiva da tradição que nos fecunda o presente. A gesta de nossa gente que do cavalo ao trator, empunhou, com o mesmo ardor, a espada, a lança e o malho e que da guerra ao trabalho apoja canções de amor.
És o ninho emocional dos rumorejos do pago e ao som gauchaço e vago de tua voz ancestral renasce a História imortal entre carreiras, relinchos, sirenas, cascos e guinchos, dos clarins à chaminé, na sinfonia da fé - mesclada dos tons mais puros - que ao sopro do ideal maduro, transpõe coxilhas e sangas tangendo, na mesma canga, o Rio Grande pro futuro!