Terrunho
Juvêncio nasceu terrunho num catre foi partejado. Por mão parteira experiente teve o umbigo cortado. Foi água benta de sanga que crismou seu batizado. A beira de um caponete já nasceu enraizado.
Logo que deixou os qüeros, já se achando rapazote. Encilhava sua petiça largando para o campo ao trote. Chapéu quebrando do vento como quem procura um norte. A vitória é de quem luta; não de quem espera a sorte.
Formou-se na faculdade doutorado e tudo mais. Sempre com bom desempenho, como era o sonho pais. Ter um dos filhos doutor pra honrar seus ancestrais. Mas preferia a estancia para lidar com baguais.
Por ser primeiro da turma se tornou pesquisador. Juntou prática e ciência com ares de professor. Isto rendeu-lhe o direito para um cargo de assessor. Num ministério em Brasília, convite de um senador.
Era um martírio pra ele pensar futuro sem terra. Sem canto de quero-quero, ouvir um touro que berra. Cidade é picada escura, onde seu sonho se encerra. É uma tumba a céu aberto onde a vida a se enterra.
Um dia encilhou bem cedo, não colocou nem espora. Saiu sem rumo, sem pressa, para o campo antes da aurora. Como campeando o guri que fora na estância outrora. Parecia um condenado cujo fim chegara a hora. Foi visitando um por um, piquetes e invernadas. Como procurando a si entre sangas e canhadas. Reencontrou sua petiça, velha, mas bem conservada. Era um silencioso adeus pra seguir nova jornada.
Foi assim que um gesto nobre lhe esporeou num florei. Cresceu do fundo da alma como fosse um devaneio. Uma vóz dando um recado que acatou sem receio. Que levasse terra bruta de um pelado de rodeio.
Foi cavando a terra firme pisoteada pelo gado. Num gesto lento e vazio de quem fora condenado. A uma sentença, macabra, um inocente arrancado. Do chão que amava tanto, onde estava enraizado.
Pra manter a raiz firme em solo bem adubado. Levaria esterco seco das mangueiras bem queimado. E um pelego bem lanudo que ele havia preparado. E era um catre quando andava no pingo bem encilhado.
Mas tinham coisas tão caras impossíveis de levar. Os aromas dos banhados, o lagoão de se banhar. Seu cavalo dasconfiança, lá não podia encilhar. Comer um bago na brasa? Não dava nem pra sonhar.
Como levar seu guaipeca barba de arame parceiro. Sem uma preá por perto pra correr no cereneiro. Sem um borralho pro sono depois que apaga o braseiro. Ia matar o amigo igual a si no cativeiro
Fez uma caixa a capricho botou terra até o meio. Pra que pudesse à tardinha soltar os pés em meneios. Pra dar cheiro de galpão chergão, carona e o freio. Com as gramas na barbela e o pelego do arreio.
Talvez assim não sentisse tanta falta do galpão. E do atavismo terrunho, que tinha pelo seu chão. Mas inda tinha os de casa, seus pais, a peonada, o irmão. Suas raízes talvez, morrecem, de solidão.
Neste tempo o modernismo já mostrava seu valor. No povo só se falava em um tal de gravador. Qualquer som que ele ouvisse berro, relincho ou tambor. Reproduzia perfeito, até suspiro de amor.
Comprou o tal aparelho e copiava o que podia. Sapos e rãs nos banhados, quero-quero e cotovia. Fez um telhado de zinco pra abrigar quando chovia. Gravou os grilos cantores e o uivar da ventania.
Chegou enfim a Brasília e armou o seu galpão. Cadeira de cavalete para pelego e chergão. No encosto pendurados freio e buçal, bem a mão. O aroma até ficou bom no ambiente de ilusão.
Enterrava os pés descalços na terra vinda da estância Escutando os banhadais com som baixinho a distância. Olhos fechados, contrito, até sentia a flagrância. Com a ajuda do gravador voltava “ao campo e a infância.”