João Caseiro
A barra do dia já o encontra mateando solito... O fogo de chão já foi avivado muitas vezes... E muitas vezes ele lhe serviu de farol alumiando pensamentos, que agora quer esquecer!
Todos se foram... Alguns, rebenqueados por sonhos que o calor do braseiro não conseguiu segurar; outros, querendo fugir do buçal de algum cambicho, palanquearam-se noutras plagas!
Os filhos do Patrão foram prá cidade, ainda piás, e lá viraram doutores, desses bem educados, da fala mansa, que de quando em quando aparecem, mas nunca falaram em se arrinconar naquele canto de mundo...
Do Patrão e de Dona Moça só restaram os retratos, amarelados pelo tempo, pendurados em lugar de honra na sala da casa onde viveram e foram felizes.
O pai-de-fogo de angico vai largando, devagarito, brasas avermelhadas que, ao caírem, se retorcem e vem dar laçaços nos recuerdos deste qüera, reavivando os sonhos, que há muito mermaram, e ficaram esquecidos em algum canto da vida.
Apesar da carapinha já branca, o velho João Caseiro vem guapeando inverno a inverno, há quase cem anos, na sua sina de peão caseiro.
Os campos foram arrendados, os cavalos ficaram velhos, e morreram...
Somente a velha mangueira, qual fantasma de outros tempos, permanece ali, como ele, a esperar por tropeiros e tropas que nunca mais chegarão!
- “O mate já está lavado mas a prosa vai ser boa... - Vira o mate, João, que hoje eu vim sem pressa!” ...Quem diria! Juca Domador, o velho amansador de potros, “Ginete do Destino”, assim diziam na querência! - Como veio parar nesta já quase tapera?
A prosa cresceu com o dia, e a vida de João Caseiro foi sendo revivida, no tranquito, passo a passo, como tropa cansada, cruzando corredores do pampa...
E enquanto a prosa corria solta, a peonada, de outros tempos, ia chegando, um a um, e sentando na roda de mate.
O tempo foi passando e, quando a noite chegou, João Caseiro não mateava solito! Todos os amigos, que ele imaginava perdidos pela morte, ali estavam...
A boieira espiava pela fresta do galpão, derramando um facho de felicidade sobre os olhos baços e a face carcomida do velho caseiro.
O som de uma milonga, que chora ao longe, avisa que, no tempo certo, os que são amigos se encontram...
A peonada, há certa hora, despede-se, prometendo a João Caseiro um breve reencontro.
De relancina, uma luz branca, dessas que cegam, invade o galpão e uma mão invisível reponta João Caseiro até o velho catre, tão velho quanto ele, e ali, seu corpo judiado adormece feliz... pra nunca mais acordar!