A Poesia e a Milonga
As madrugadas alcançam as minhas rondas de insônia, Perdi a soma das contas que já varei noite à dentro, O mate quebra o silêncio desse ritual costumeiro, Ouço um grilo seresteiro contraponteando a guitarra E o verso rompe as amarras num milonguear galponeiro.
A noite é um templo sagrado com ares de nostalgia, Traz uma intensa magia com sua luz branda e serena, É palco de muitas cenas, inspirações, devaneios, E o mais suave floreio nas cordas do meu violão, Ganha sentido e razão pra libertar meus anseios.
A poesia me transporta e me faz ganhar o mundo, Tudo muda num segundo, numa palavra, um gesto, É a arte em seu manifesto, simplicidade e essência, E a milonga é a cadência, o toque que traz a calma, Unindo o corpo e a alma, louvando pátria e querência.
A poesia e a milonga são partes do mesmo ser, Juntas, fazem transcender a inspiração do poeta: -Carreiras em cancha reta, baile de rancho e ramada, Revoluções, campereadas, peleias, causos de ronda, Onde a poesia e a milonga andam sempre acolheradas.
Em tudo existe poesia, até no canto dos galos, No relincho dos cavalos, no retoçar da potrada, No latir da cachorrada, costeando as vacas de cria, Nas noites de geada fria, no poncho que aquece a alma, Numa milonga que acalma, e se transforma em poesia. Poesia é cena de campo, tropa, tropeiro e boiada, E a milonga é a própria estrada cortando várzea e coxilha, É cheiro de maçanilha, perfume do meu rincão, Poesia é o próprio galpão pra o descansar da peonada, Milonga é tropa encerrada, carne, truco e chimarrão.
A poesia é a voz do campo, descrito com telurismo, A milonga é o atavismo, é terra por descendência, É a mais fiel procedência da nossa gente terrunha, E a poesia é testemunha descende da mesma herança, São tentos da mesma trança fundidos na mesma alcunha.
Não imagino poesia sem milonga no costado, Neste universo sagrado de emoção e sentimento Uma é o pilar, o sustento de uma cultura imortal, A outra o toque ancestral, pátria, fronteira e furor, Que encontrou seu parador, na poesia regional.
Por isso entoo milongas com ares de nostalgia, Por isso escrevo poesia assoviando uma milonga, E a noite que se prolonga toda enfeitada de lua, Vem dormir nas cordas cruas dessa guitarra campeira Pra despertar com a boieira numa milonga charrua.
A poesia e a milonga são as razões do poeta, E a inspiração se completa num ponteio de guitarra, Por isso é que nos amarra, um verso em noite de ronda, E um dedilhar que se alonga nos enche a alma de luz, E a poesia se traduz num bordonear de milonga.