Elegia ao Ultimo Inverno
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As lembranças vem a galope com a saudade nos tentos, e atropelando a memória faz-me rever a história abrindo as cancelas do tempo.
Quando o vazio dos corredores se agrandava nas lonjuras, eu repontava meus sonhos montando um baio taquara, mas meus olhos teatinos se enfurnaram nos caminhos entre espinheiros e auroras.
Armei mundéus pelas grotas, campeei, campereei, insisti, mas meus sonhos de guri nunca mais encontrei.
Quisera eu voltar no tempo pra remendar o passado. Quisera tropear sem pressa nos corredores de outrora, e rondar nos quatro quartos a minha tropa de sonhos, que se perdeu de sonhos, que se perdeu pelos anos entre espinheiros e auroras.
Mas, chegou o último inverno e o que me resta desse conflito, /se já me sinto tão dele? Sim, cansei de matear nessas manhãs que me arrastam, pois entre o mate e o pito tem solidão, tem saudade. Cansei de ver meu rosto nesta cacimba orgulhosa, que só me mostra resquícios de um semblante em primavera.
Quando mermarem estas manhãs farei do rancho tapera, pra descerrar as cancelas dos ermos campos sem fim, terei pedaços de mim varando no pajonal, repontando novos sonhos sobre o dorso d’um bagual. Guiado pelo cruzeiro vou guitarrear pros luzeiros e acalantar a boieira, pois será minha parceira nesse reponte final!!!
Antes do sol se bombear no açude, deixei o calor dos pelegos pra emprestar aconchego e prosear com a guitarra.
Cevei um mate de espera entre milongas antigas e fiz dos versos parceiros nessa tropeada de vidas.
O braseiro pariu em chamas clareando a madrugada nua, e uma cambona tisnada meio enfurnada nas brasas, traidno o calor dos mates charlava e emudecia...
Ah! Esses invernos sem graça! As grotas brotam aos poucos na imensidão lamacenta, bordando o verde dos salsos sobre os pelegos de agosto.
Parei a bombear meus trastes e senti que a mão do arremate dessa jornada terrena me acariciava as melenas como quem nana criança.
“La fresca!”, que lida infame. Esse inverno desgranido parece que vem de dentro entangue a alma primeiro, depois o poncho surrado deixando o corpo judiado neste silêncio inverno. Que agosto caborteiro!...
Então, pra aquentar a alma e o corpo velho encarangado, retoco o fogo com força, falo sozinho, me calo. Um grito ecoa por dentro e o peito mouro estremece, da garganta brotam preces, que se esparramam no ar e as milongas se alargam procurando o meu cantar.