Rodeio das Almas
Tem pouca gente que sabe E bom nem dar muita cancha, Mas quando a noite se arrancha E só as estrelas tropeiam, Antigas almas vagueiam Por coxilhas e canhadas Campeando ânsias passadas Que ainda lhes cabresteiam.
E nas madrugadas escuras, Com tudo em sono profundo, Que se abre esse outro mundo No breu da noite moqueado E os espíritos do outro lado Vem buscar em suas andanças O gosto frio das vinganças Ou um sonho inacabado.
E, somente, nestas horas O tempo tem uma aresta Bem onde se abre uma fresta, Num campo fundo escondido, Pro espectro vir transcendido Por essa porteira divina, Talvez por amor a uma china Saudade de algum querido
Deve existir algum trato Entre o guardião do portal Pra que nosso mundo mortal Tenha esse acesso estreito, Ou faz vista grossa o sujeito E deixe esse espírito fujão Vir pagar, tostão por tostão, Tudo que não fez direito.
E correm campos e várzeas Com lidas imaginárias Lembrando eras primárias Em farras e pacholeios Buscando antigos rodeios Ansiando um corpo de veste Pra sentir, da vida terrestre, Ao menos alguns ponteios.
Rebolcam por entre taperas Nas mais altas madrugadas E vagueiam pelas picadas Por onde tiveram cambichos, Por vezes assustam os bichos Que sentem seus chispaços Ensaiando a tiros de laços, Rumbeando antigos bolichos.
As vezes uma se descuida, Chega bem perto das casas, Quando se inflamam as brasas Um vento morno nos passa Decerto foi um esteio da raça Centauro de alma bravia, Sedento em beber poesia E alguns goles de cachaça.
Nem mesmo noites de geada Recolhem as almas sedentas E nas que tem as tormentas, Onde tudo vai se achicando, São elas se enroscando, Por alguma mágoa passada Ou uma carreira roubada, Que agora acertam peleando.
Por seus antigos sentimentos Muitas almas se reconhecem E aquelas que se merecem, Ainda carregam a este fado Aquele amor não revelado, O mais proibido romance Ainda suplica uma chance Ao beijo que nunca foi dado.
Essas namoram e se achegam Cochicham antigos segredos Ainda dividem os seus medos Tem um ao outro de regalo Já provaram, no maior pealo, Que o laço do amor é tão forte Que nem o tironaço da morte Vai conseguir rebentá-lo.
Muitas têm resquícios do dom Que em vida lhes foi sinuelo Mas sem ter carne nem pelo, O que é material lhes embreta, Quantas dessas almas inquietas Foram de pessoas temidas Enquanto seguem iludidas As pobres almas dos poetas.
Tem algumas mais pesadas Preferem noites encardidas Quem sabe porque suas vidas Foram de medos e aflições E agora em suas condições, Já há muito desencarnadas, Só lhes reste ser confortadas Com a força das orações.
Já outras de todo brancas, Que nunca foram de enleias E que preferem as luas cheias Para vaguear pelas planuras. Elas não afligem as criaturas Nem sofrem nossa ausência, Só vem sentir na querência O que não tem nas alturas.
Quem não acredita que veja Numa noite assim como agora, Tem bem mais coisas lá fora Que o simples plano terreno O sentir humano é pequeno Não apalpa tudo que existe E talvez uma alma mais triste E que chore o próprio sereno.
E numa dessas madrugadas, Sorrateiro que nem carancho, Tenteie, “fresteando” o rancho, Com uma vista bem de soslaio E nas chuvas mansas de maio Que as almas mais descuidadas, Volta e meia são flagradas, Quando a noite cospe um raio.
Mas um pouco antes do Sol Pintar as barras da aurora Tudo está quieto lá fora Nem mesmo uma alma restou E que uma por uma adentrou No mesmo portal escondido, Porque o dia é proibido A quem a morte pealou.
E quando findar meu tempo, Aqui desse lado do plano, Eu peço ao patrão soberano Que a mesma graça me mande Minha alma aqui ainda ande Depois da viagem derradeira E eu possa usar a porteira Que vêm direito ao Rio Grande.