Heranças de Cor – Edson Marcelo Spode
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Antigos tambores rufavam Por pulsos negros libertos Brindando os ritos incertos Gestas tribais de uma gente E nem seu próprio vidente Em sua mais sinistra visagem Viu arrancar a sua linhagem Em planta, raiz e semente.
Povos estranhos chegaram Trançar seu destino com aço Grilhões na perna e no braço Sangue vermelho por prova E os sonhos negros na cova Em cargas brutais de cobiça Que o ouro raro enfeitiça E a mão covarde retova.
Tomaram vidas de assalto Sem mesmo fazer negaça Pois teve renda a desgraça A crueldade Jogou de mão Quem aprisiona um irmão E vende como mercadoria Por certo tem a alma vazia Ou coisa ruim em seu vão.
Veio aportar no Rio Grande Por mãos lusas de além-mar E que lhe proibiram sonhar Maneando as asas da mente Essa gente de cor nada sente Diziam com a frieza mais pura Afago para a pele que é escura É a marca de um ferro quente.
Põe o negro na charqueada Lhe aparta a lida mais bruta Corrige na chibata a conduta Enquanto charqueia o gado Importa mesmo o resultado E se algum prancha em fadiga Só há de ser mais uma viga Para o alicerce do Estado. No pastoreio e na estância Nas lides em campo aberto Onde tu farejaste por certo Os resquícios da liberdade Somente tocava em verdade Aos teus senhores, sotretas Que tu puxaste as carretas Com as ânsias da sociedade.
Nas cidades mais pujantes Extraviadas de sul a norte O escravo com braço forte Foi o seu maior construtor Não se estima o seu valor No alvorecer desse Estado Com golpes secos forjado Por punhos de negra cor.
Os mesmos punhos cerrados Empunharam lanças mortais Peleando por brancos ideais Em frontes hostis de batalha Sem pretensões de medalha E sim por palavra empenhada Mas a tua liberdade sonhada Foi junto a ti por mortalha.
Vieram sentenças covardes Que os gabinetes tramaram Lenços rubros branquearam Traindo o próprio guerreiro Por isso até hoje, parceiro Olhando teu lenço de perto Tem um respingo por certo Do sangue guapo lanceiro.
Ficou bem mais nesse pago Do que provas de bravura Nos esteios de uma cultura Que o saber não discrimina Negros da estirpe mais fina Poetas, mestres e letrados Palanques firmes cravados Na base de nossa doutrina.
Pelos caminhos da poesia Nosso grande vate Silveira Com firmeza de tronqueira Na história dessa querência E ai que bater continência Por seu ativismo e bandeira Ecoando no além fronteira Gritos de cor e consciência
Tem um ponteio em milonga Para as farras do índio taita E o lendário negro da gaita Floreando o fundo da grota Até na origem mais remota Samba, batuque, pandeiro Mesclam o som campeiro Sem pedir vaza e nem cota.
Na estampa Rio-grandense Ficou um sorriso de largo Do passado mais amargo Fizeste uma nova aurora Tua estirpe assim revigora E teu ímpeto não se rende A liberdade não se prende Se vem de dentro pra fora.
E em cada fundo de campo Bem como bronze de praça Perdura o DNA de tua raça Nessas placas dos generais Mas não se apagam jamais A grandeza de teus feitos Que nos gaúchos preceitos Serão pra sempre imortais.
Tem um florão de mulato Pelas voltas da sociedade Por vulgo chamam liberdade Em qualquer parte, que ande E a sua cultura se expande É curtido em muita refrega Jamais se abala ou entrega Porque seu nome é Rio Grande.