Alma em Verso
Poesia

Êxodo – Anderson Fonseca e Mateus Neves da Fontoura

Anderson Fonseca e Mateus Neves da Fontoura

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Novos tempos... velhos rastros! E a ilusão povoeira vai seguindo a sina de fazer estrada... Parece mesmo que até o campo resolveu fazer as malas... ...e agora, desarranchado, também se fez incerteza. A não ser a casa, que por ser pedra, teve que ficar.

São os novos conceitos de sustentabilidade... Estes que se renovam à medida que o dinheiro Empurra pra o brete nossa linhagem campechana. Parece até uma ferida antiga que cicatrizou tapera E compõe esperas de quem foi ao mundo e se perdeu de fato!

Na coxilha, o mato! Onde foi potreiro da eguada mansa E a "forquilha" enchia o matambre do gado pampa Cumprindo a sina pastoril deste sul de mundo, Fez até a cacimba perder a serventia de saciar a sede Pois não há quem beba desta água pura, a verter saudades...

... Restam soledades, sem tropilhas pegas para as campereadas.

É a matéria prima do progresso... a mataria. Um verde de outra cor que rompe e que se estende horizonte a fora A cumprir o seu papel... de transmutar em plata a seiva desta terra Sem saber consequências ou penas de um povo... ...e de manter senhor, quem já foi senhor... e seguirá assim.

É o ciclo repetido, que faz migrante outra geração. Novos tempos... velhos rastros! E hoje o mato é o que foi lavoura pros nossos avós. E quem seremos nós? Quando pendurarem nossos retratos...

Primeiro o índio primitivo, o bugre ateu Depois os jesuítas com seu gado... ... o charque, a carne, o couro e a catequese... Em seguida, minguaram as tropas E se avolumaram as lavouras: - A soja, o arroz, o trigo, o milho E junto do lombilho foram as mouras...

O tempo em que vingou o maquinário E atropelou numa carga as divisas sesmeiras... ...é o mesmo em que o campo se mudou! E dentro da sua mala de garupa Que nem avolumava embaixo dos pelegos, O campeiro encontrou o seu calvário.

Antes a mão do laço fez rodilhas E atou nos bastos da existência toda a trança E enquanto os bois sumiam junto ao pasto Perdíamos o sinuelo da esperança...

Antes a força das botas sustentou nosso povo E era fecundo o que vinha da terra. A mesma terra que germina a vida Municia de todo quem a respeita E entende o valor do seu mister.

Então se remoçou a identidade Nos sonhos das colheitas do rincão E aprendemos que o campo, além de carne, Também era do trigo pelo pão

Agora os arados enferrujam... Não riscam mais a pele da invernada. Perdem semeador e peão campeiro, Minguam trator e cavalhada E assim sofrendo as penas do progresso... ...o campo pegou a estrada.

Hoje o que se planta não se come Não é fruto... nem semente e não é pão... É lenha... é madeira... e é papel. Perdemos, do campo, a sua razão!

Por isso que a estrada nos espera Com velhos rastros, e novos tempos... Feito pássaros, perseguindo o firmamento, Em busca de horizonte e nidação. Parece desprezarmos a lição Que já nos ofertou tanta experiência: - Não somos de silêncio e de ausências! Enquanto a terra sangrar, sangraremos... ...e já passou da hora de aprendermos Que o campo sempre foi nossa querência!