Pra Quem Enfrena um Verso
“...Quando um poeta embuçala... Tropilhas de nostalgia, Quem declama ajeita as garras Para domar elegias... Com paciência e sentimento... Por saber topar os ventos Que há no lombo da poesia!...”
É de alma leve que empresto - Nesta invernada de temas - A minha voz para um poema E pra memória de um poeta... O primeiro – são as coisas que digo, O outro... funde o sentido De tudo o que me completa...
Me inspiro nas madrugadas, Quando bombeio a boeira, Se banhando nas aguadas Antes das barras do dia... Qual a porteira do mundo, Onde o céu corta distâncias E vem espiar as ânsias De quem - junto aos mates – sorve... poesia.
Às vezes a inspiração, Tem cheiro de pasto e terra... Quando um arrulho de garoa Contraponteia o crepitar das brasas... Tudo se queda por perto, Mas o pensar é liberto, E estradeia sem nos tirar “das casas”...
Declamo - e trago ditos dos fogões, Das domas – tropas e rondas Que se acampam no meu peito, Vida adentro – campo afora... Tal se falasse com o gado, Com timbres de antepassados, Talareando com o vento e um par de esporas...
Dizer um poema – “campeiro”, É transcender vidas e eras, Deixar legado pro’s moços, Responder ao ponteio que espera... É ser o sinal de cruz , Pra quem tombou pela estrada Deixando um rancho tapera... Ser voz que terna acalanta, Ao guri – que por inocência - erra... Ser o resguardo da planta, Sombreando uma rês que berra...
...É o meneio campechano Quando se encilha a preceito... Ou gesto que alcança o mate, Pelos fogões das estâncias... Triste certeza do homem, Que foi – mas não retorna a infância... ...É sentir nas mãos os calos De quem alambra e quem doma, Riscar rumos e lonjuras Com a sina dos changueadores; Ter a solidão dos banhados, E a inquietude dos dessabores...
...É ser um e ser muitos... (Os tantos que já partiram...) Talvez razões que o pensar Achou pra lembrar dos seus... Imagens de algum adeus Feito um último carinho, Que hoje inspira no caminho Em toda cena que vive, A ter a face dos livres, E a ânsia de deixar de andar sozinho...
E é neste rodeio de acenos, Que o olhar fica estendido... Tal se estivesse a cavalo, Mirando campo e distância Por conta de algum perdido... Talvez pela emoção desgarrada Que’u sempre encontro na armada Do meu gesto mais sentido!...
Por isso é que quem declama, De alma livre e peito aberto, Consegue estradear no tempo, Ter tudo e todos por perto... Enfim... o tema é seu universo, Fala o Rio Grande por sua voz, O que fomos e o que somos nós, A vida da nossa gente de campo Emoldurada em cada verso!...