O Velho Testamenteiro
O velho testamenteiro abriu quieto o envelope Que exigia sua função... Na sala escura a família, num luto dos bem sentidos, Aguardava o conteúdo do envelope timbrado... Os filhos miravam quietos o velho testamenteiro Com nuvens no coração, Pois sua perda era imensa e muito mais do que herança, Queriam ver seu legado.
Os filhos tinham na alma inquietudes diferentes, Mas firmes no mesmo chão... Crioulos dessa querência traziam na sua essência Lonjuras de céu e mar... Se não me falha a memória, eram assim os Osórios, Os filhos da Conceição... A princípio diferentes, mas com a mesma vertente Jorrando vida no olhar!
O mais velho era sisudo, olhos fundos, pouca fala, Mas com lampejos de céu! Da família era o guardião da história, da tradição E do código moral; O do meio era alegria, trabalhando noite e dia Com a força de um tropel Criando rumos maduros, com os seus passos seguros Firmados no litoral!
Já o mais novo entendia que as esperanças nasciam Bem ao alcance das mãos... Que os sonhos eram pontes que uniam os horizontes À saga de cada ser; Mirava luz nos escuros, buscando sempre o futuro Nas barras do amanhecer... Se não me falha a memória, eram assim os Osórios, Os filhos da Conceição!
O velho testamenteiro era amigo da família Desde que ela se formou... Já vinha de muito longe, tinha eras de experiência E não sabia parar; Desde o início dos tempos testemunhava as histórias De todo e qualquer lugar... Foi numa dessas cruzadas que Conceição, já cansada, Por confiança lhe chamou.
Conceição enternecida, repassou toda sua vida Quando o amigo chegou E entregou em silêncio um envelope cinzento Pra depois então falar:
“ Nasci aqui nesta terra, sonhando à beira do arroio desde a primeira canção, A natureza sorria quando no mais belo dia o mundo clareou pra mim... Chorei um choro bonito, como dizendo pra todos: - Aqui chegou Conceição! E meus passos pequeninos foram criando o destino De uma história sem fim.”
“Fui crescendo pelo tempo, menina, moça, mulher... E o mundo, meu bem- me- quer, me deu abrigo e calor; Mas o meu sonho, parceiro, bem mais que um sonho qualquer É um sonho que se renova na eternidade do amor!”
“Meu tempo agora passou... Sou Conceição e me vou Aos braços mansos de Deus; Por isso, amigo Vento Lhe entrego este testamento Pra repassares aos meus.”
Lembrando aquele momento, o velho testamenteiro Leu as palavras sagradas com todo alto e bom tom... Na sala escura o silêncio de três filhos bem amados Absorvendo a mensagem que a mãe querida deixou:
“ Para meu filho mais velho, deixo a história que tracei E a saga que construí... Minhas relíquias, valores, os mais antigos sabores E a mão perene do tempo que me trouxe até aqui.”
“Para meu filho do meio deixo a coragem e o esteio Que me fez crescer na vida... Mais esse antigo baralho onde fartura e trabalho São cartas bem sucedidas.”
“Para o meu filho mais novo fica a força deste povo E a coragem de sonhar... De transcender esses montes, beber das mais claras fontes Que existem além do olhar.”
“Para os três, em resumo, deixo um pouco de perfume E algumas velas febris, Acesas neste oratório, pra honrar o nome Osório E defender o país. As lembranças do meu colo, as estórias que contei... E os segredos de família que em noites de lua grande Pra um a um revelei.”
“O mundo, meu companheiro, responsável verdadeiro Por tudo aquilo que sou. Minhas paixões, esperanças, e um arroio de águas mansas Que sempre me acompanhou.”
“Tudo de bom que vivi, As moradas que ergui, Aqui entrego de vez; Essa história não tem fim... Pois tudo que vive em mim Agora segue nos três!”
O vento, enfim, se calou... E mesmo com a vivência de tantas e tantas eras, De saber dos continentes, de multidões e taperas, O velho testamenteiro nesse momento chorou.
Um pranto bom de saudade, pingando bênçãos no chão... Regando de eternidade essa herança sagrada De ir sempre mais adiante, com a alma enraizada... Plantando arroios nos olhos dos filhos da Conceição!