Prenhes
Minha alma está prenha, barriguda... Não sei se de pandorgas, cata-ventos; Ou seriam girassóis extemporâneos Contrariando o grande astro em movimento? Minha alma está prenha, foi tocada Talvez por uma mácula do bem; Pois à única prenhez imaculada Até hoje os cristãos dizem amém. Minha alma foi forçada, violentada, Ou então foi possuída com carinho; Frente ao gume tão malino de uma espada Ou num beijo, numa alcova fogo e vinho. O fato é que está prenha, barriguda, Faminta pra parir o que virá... Astros, glórias, gênios, sábios, soberanos Ou apenas um versinho sem pensar. Dor do parto já maltrata, já machuca, Mas a alma com certeza terá o prêmio; Mais um filho que ela pare na poesia, Ou melhor, muito melhor se forem gêmeos. Uma décima, um soneto, quatro quadras... Tanto faz se o ventre verte coisas puras; Do que é certo, ou da imoralidade, Esse parto vai jorrar novas loucuras. Minha alma está prenha, está pançuda... Mal se aguenta na fraqueza das suas pernas; Sem muleta, sem esteio, sem escudo, Vai gestar e vai parir coisas eternas? Seja fácil, ou difícil, impossível... Só uma coisa a poesia nos engana; E brutal, é desigual, é invencível... Pra este parto não existe cesariana. Bem me lembra o parto bruto de Ana Terra, Ela, a terra, uma furna, uma tesoura; Um cordão umbilical cortado à bruta E o início de uma saga duradoura. Muitas vezes sem parteira não dá certo, Minha alma está solita num grotão; Esperando o próprio parto, sem tesoura, Só os dentes e a vontade tem à mão. Talvez seja assim o parto da minha alma... A semente desafiando bem e mal; E a poesia, mais sublime, mais covarde, Retalhada no cordão umbilical. O que vem desta minha alma tão pançuda Só no ato da nascença vou saber; Se for bueno, tanta gente vai benzer... Se for monstro, “pulamor”, Deus nos acuda!