A semente e o cimento
Eu sou apenas palavras Pelas palavras de alguém; Eu não respeito ninguém, Apenas semeio o nada. Minha vida é madrugada, Apesar do eterno sol E se me fisga o anzol Da mais pura hipocrisia, Persisto em fazer poesia Até meu findo arrebol.
Não tenho nem coração, Só um músculo pulsante, Que insiste em levar adiante Minha pobre encarnação. As gentes são o que são... Eu também sou o que sou E pela vida me vou Tentando semear o bem... Mas se a alma não o tem, O intento se desgraçou.
Eu sou brabo, sou brigão... Isso jamais aconselho; A vida surra de relho Sem dar saída, ou perdão. Mas faço reflexão E sei tão bem onde peco... Onde quebro meus tarecos Na alma, assim, tão vazia E insisto em fazer poesia Das mortes que em mim disseco.
Em mim a alma não vem... Sou apenas um engodo, Logrando a alma de todos, Que certamente alma têm. Ainda creio no bem, Apesar de fraudulento; Creio nas flores, no vento, Em tudo que é mais bonito... Pois a semente, acredito, Germina em pleno cimento.
Assim me vou, mundo afora, Talvez a lugar nenhum; Sigo o eterno jejum Daquilo que me apavora. Quando chegar minha hora Estarei de alma serena. Esta alma tão pequena, Conforme um dito inclemente E entenderei, finalmente, Que tudo valeu à pena!