Alma em Verso
Poesia

A Batalha de Santa Maria

Carlos Omar Villela Gomes e Ricardo Rítzel

I Estância da Poesia Crioula - VirtualPublicado em

Os meus olhos de guri eram puros, verdadeiros, Só miravam brincadeiras e pequenos horizontes; Bebiam das limpas fontes que a infância nos proporciona.... A minha alma era dona da velha Boca do Monte.

Jogo de osso gaúcho, folguedos, jogos de bola... O pátio grande da escola, a casa, que bem eu lembro; Um mundo doce, que o tempo entregava com beleza, Mas que perdeu sua pureza num dezesseis de novembro.

Nem bem clareava esse dia, soaram altos clarins... Pareciam camoatins picando nossos ouvidos; Os gritos foram sentidos, retumbando na distância, E um canhão rugiu com ânsias de um leão-baio ferido!

E veio outro e mais outro fogonaço canhoneiro, O chão tremeu por inteiro, o terror tomou a gente; Seguiu a força inclemente da grande fuzilaria.... Assim começou o dia que há de ficar pra sempre.

Os quartéis foram tomados naquela manhã tão densa, Vitimados pela crença de tenentes rebelados; Mais de oitocentos soldados querendo mudar a pátria, Com argumentos que matam quando são vociferados.

Os irmãos Nelson e Alcides comandaram a revolta Feito represa que solta numa só feita o caudal; Santa Maria era o caos, prevendo a destruição, Sangrava em forte opinião, que ignorou bem e mal.

A República era frágil, a rebelião foi geral, Isidoro, o Marechal, marchava do Paraguai; Retovo de temporais, onde a história se reveste E Santa Maria prestes a passar horas fatais.

Mas uma terra de fortes não se entrega assim em vão... No meio da escuridão da fumaça e do castigo; Com nossa gente em perigo, nosso mundo a desabar, A Brigada Militar atropelou o inimigo!

Era a força legalista, pequena, mas resistente... Eram duzentos valentes numa luta desigual; Pechando o intenso ritual da imensa fuzilaria, Que medonha destruía nossa cidade natal.

Era estrondo, chumbo e sangue tocando imenso terror, Os rebeldes em furor e a Brigada persistindo; As trincheiras resistindo à força dos canhonaços. Ao turbilhão de balaços... e assim o dia foi indo.

O telégrafo, a intendência, toda e qualquer estrutura, Que pudesse, porventura, ajudar na resistência; Eram alvos da inclemência da mira do fogo algoz, Tentando tornar em pó as bases desta querência.

Os rebeldes só não viram um buraco no seu pala... Confiantes em força e bala, surpresa e preparação; Seguiram sua missão sem entender que a Brigada Tinha a defesa forjada no olhar de Anibal Barão.

O Major sabia as artes das estratégias e guerras, E livraria esta terra de toda a profanação; A tábua de salvação: Os brigadianos lendários E seu líder visionário: Major Anibal Barão.

Quando um piquete rebelde foi desvendar os caminhos Até a Saldanha Marinho pra sondar alvos ferinos; Quis a força do destino que a Brigada, com seu braço, Os recuasse a balaço até a praça Saturnino.

O dia foi se findando, a chuva ficou mais forte E o cheiro de chumbo e morte pairava nos moradores; Alguns rezando em pavores, outros indo pra os porões, Apertando os corações, que pareciam tambores.

Os bombardeios seguiram, com força ainda mais intensa, Mas aquilo que se pensa nem sempre é a vida real; O que parecia o mal, zombando em plena desgraça, Era o manto de fumaça pra retirada final.

Se foram de madrugada, exaustos, tristes, sem glórias... Seguindo sua trajetória rumo ao lado castelhano; Pois oitocentos soldados, em uma luta bravia, Perderam Santa Maria pra duzentos brigadianos.

Houve desfile e louvores pra os heróis da cidade; Toda nossa sociedade nas ruas, a festejar; Hoje velho, sei contar o que antes não entendia E chego a fazer poesia dessa batalha sem par.

Então os lírios e as rosas se juntaram aos fuzis, Dizendo, em formas sutis, do amor que vive na gente; Agradeço eternamente a bravura da Briosa, Mas creio em lírios e rosas, bem mais que no chumbo quente.

E eu, onde vivo agora, lembrando do triste dia, Que passou Santa Maria, beirando a devastação? Não sei se foi gratidão, ou o acaso mais ameno ... Moro num rancho pequeno na Rua Anibal Barão!

Obs: Baseado na tentativa da revolta tenentista de tomar a cidade de Santa Maria, entre os dias 16 e 17 de novembro de 1926. A rebelião iniciou-se dentro dos quartéis, que foram dominados pelos revoltosos, inconformados com o Poder Central. Apesar da superioridade imensa em contingente e armamentos por parte dos rebeldes, a Brigada Militar, que defendia a legalidade, conseguiu rechaçar o ataque, sob o comando o então Major Anibal Garcia Barão.