Quanto Vale a Vida de um Soldado Raso? Bianca Bergman
Quanto vale a vida de soldado raso E seu sangue pobre a manchar os campos? Quanto vale o tempo que não foi estrada? Quanto vale o sonho que jamais se fez? Quanto valem planos nunca planejados? E um amor quebrado, que partiu-se em três?
Quanto vale o abraço que não foi entregue E ficou perdido entre as entrelinhas, De um poema antigo que se fez silêncio, Quando a voz calou-se pela noite escura?
Sim... Eu entreguei meu filho como tantos!
Como tantos outros, que assim por honra, Navegaram mares, para além dos tempos, A pegar em armas, defendendo terras... Terras tão distantes, que nem eram suas... Por glórias distintas, que não foram nossas.
Sim... Eu entreguei meu filho como tantos!
E chorei o pranto dos desesperados, A secar a alma, que encharcou de medo, Por saber que as ordens não resguardam vidas. Por saber que a vida se desfaz tão fácil.
A guerra não tem pena dos soldados! Estranha cafetina em servidão. A morte vem vestida de medalhas, Beijando as suas bocas, um a um...
A guerra faz promessas tão insanas! A morte vai despindo-se e então A guerra coleciona seus fantasmas E a morte é nua e fria, sem paixão.
Sim... Eu entreguei meu filho como tantos!
E ele foi mais um que lá caiu. Não sei se foi por bala ou canhonaço, Se em dia de calor, noite de frio. Só sei que aqui agora a gente chora, Com ouro reluzindo em nossas mãos. Quilates de saudades, que me sangram E trazem essas interrogações...
O vento vem contar dessas distâncias! O tempo vem cobrar a sua conta. No peso dessa dor, que nunca passa, Os anos são açoites nas lembranças.
Respondam-me senhores dessa guerra! A troca foi proposta, estou aqui!
Na caixa uma medalha de bravura... Bravura que ao meu filho não serviu! Trocaram o meu filho por medalha E agora estou aqui, quero saber!
Que desçam de seus postos e me contem... Meu filho já não pode me contar! Quanto vale o abraço que não foi entregue? Quanto vale o beijo que não posso dar?
Respondam-me! Respondam-me, "senhores"! E olhem nos meus olhos ao contar.
Espero essa resposta há tanto tempo... Não tenho mais paciências e nem prazos... Na conta amaldiçoada dessa guerra, Quanto vale a vida, de um soldado raso?