Borracho
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Parceiro... Repare bem... Lá longe no infinito, Bem ali tinha um ranchito Onde morei certas eras Hoje só restam taperas Marcando o tempo buenacho, E as lembranças que hoje tenho, Daqueles tempos felizes São profundas cicatrizes Na alma deste borracho.
Há... se eu pudesse gritar Pro mundo inteiro me ouvir... Fazer o povo sentir Aquilo que estou sentindo, Este pampa que foi lindo, Se a gente parar pra ver Este Rio Grande glorioso Que a tanto tempo eu defendo Vai aos pouquitos morrendo, Sem nada eu poder fazer.
Era tudo campo aberto, Sem divisas... sem porteiras, Uma pátria sem fronteiras, Era assim, antigamente; Não tinha cercas na frente... Campos verdes... céu azul... Parecia qrá quem visse Tão deslumbrante beleza, Que a própria mãe natureza Era o Rio Grande do Sul.
Foi então que o tempo “Maula” Foi chegando de mancito E o meu Rio Grande bonito Foi aos poucos se entregando, Foi mudando... Foi mudando... Até ficar diferente O progresso, a galopito, Sem ter do pago clemência, Veio invadindo a querência, Mudando a vida da gente.
Bem ali, naqueles montes, Atrás daquelas coxilhas, Morava o Juca Padilha, Índio taura, guapo e Bueno Que viveu desde pequeno No ranchito... que era ali De repente veio uns tauras Pra construir uma estrada Bem no meio da morada E o Juca se foi daqui.
E assim foi outro...e mais outro... As cercas foram surgindo, Novas estradas se abrindo Cruzando montes e sangas, O velho pé de pitangas Que tinha ali no varzeão Que tantos e tantos anos Deu a tão gostosa fruta... Foi jogado, á força bruta, De galho e tronco no chão.
Do campo verde de outrora, Tão verde quanto á esperança, Hoje só resta a lembrança, Também do velho riacho E o banhadão lá de baixo Também desapareceu... Foi transformado em lavouras, Palmo a palmo foi lavrado Muito pouco vê-se o gado Neste campo que foi seu.
E eu que vi tudo isso Ser aos poucos transformado; O campo virar povoado E o corredor com asfalto Então eu grito mais alto Peço socorro a campanha, Só o vento Norte responde Como quem diz... não adianta; E eu volto a encher a garganta Com mais um trago de canha.
Porém, ainda me resta, Neste grito uma esperança, Volta Sepé...Pega a lança, Solta teu grito de guerra, Torna a defender a terra Nem que tu morra outra vez... Chama de novo teus bravos, Tua tribo missioneira Derruba cerca e porteira Como outrora tu já fez.
Levanta Bento Gonçalves, Que o pampa está te chamando Precisamos de um comando Para dar esta arrancada, Volta empunha tua espada No pampa meridional... Eu quero marchar contigo Como um valente soldado Galoparei lado a lado Com você meu General.
E assim unidos faremos O mundo nos compreender, Quem quiser entender Que amar o pampa é preciso Nós daremos um aviso Para que do pago se mande Quem não gostar desta terra Que tenha santa paciência Suma de vez da querência, Nunca mais volte ao Rio Grande!